No dia 18/07/15, foi realizada a Oficina: “Adolescência e uso de drogas: pensando caminhos”, com a participação dos especialistas: Bruno Ramos Gomes, que possui graduação em Psicologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2006), e mestrado em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP. Atualmente é coordenador e presidente do Centro de Convivência É de Lei, além de psicólogo clínico e Acompanhante Terapêutico. Atua principalmente nos seguintes temas: drogas, redução de danos, vulnerabilidade, crianças e adultos em situação de rua, direitos humanos;  e Valéria Pássaro, que é educadora, com formação em educação libertária, com experiência na coordenação e desenvolvimento de processos de formação em política de assistência e desenvolvimento social. Atualmente é coordenadora pedagógica da Moradia Associação Civil, que trabalha com crianças e jovens em situação de grave risco social.

Bruno iniciou o encontro apontando para o fato de que as drogas sempre existiram na história da humanidade, e que em cada cultura, o uso das drogas tem objetivos/motivações distintas, podendo ter um cunho: religioso, mágico, criativo ou recreativo.

Na cultura dos Andes, o uso de bebidas alcóolicas tem por objetivo “encontrar com o mágico”, com o superior. Em algumas culturas hindus, o uso de maconha tem finalidades religiosas, assim como o vinho está presente na cultura católica.

O que são drogas?

Etimologicamente, a palavra vem do holandês “droog”, que quer dizer seco, coisa seca. Os primeiros relatos foram em 1500 no Porto Holandês, na época em que as expedições estavam acontecendo, e com elas as especiarias sendo descobertas e transportadas para diferentes culturas. Nesta época, não havia distinção entre as drogas e especiarias, e o uso dessas substâncias foi sendo constituído de acordo com as diferentes culturas. No início do séc. XIX, 90% dos medicamentos continham ópio em sua composição química, por tratar-se de um anestésico.

Pela definição da OMS (Organização Mundial da Saúde), droga é toda substância que introduzida no organismo vivo, modifica uma ou mais de suas funções.

Alimentos e remédios também são drogas?

A partir desta definição, reflexões são colocadas: Os alimentos, remédios, veneno seriam drogas? Bruno relata que o que define uma droga não é seu componente químico, mas no contexto, no tipo de uso, dosagem e sentido para cada um. Por exemplo, o café é um alimento que contém cafeína, uma substância que também está presente em medicamentos, e para muitas pessoas causa dependência. O próprio uso da maconha, através de estudos, vem sendo discutido para uso medicinal. Desta forma, quanto menos focarmos na substância e mais no contexto, mais possibilidades de compreensão e intervenções serão possíveis.

Os efeitos causados pelas drogas dependem de aspectos como: frequência, tempo de uso, qualidade da droga, metabolismo, associação com outras drogas, condições psicológicas, físicas e contexto social. É fundamental compreender estes aspectos a fim de não colaborar com generalizações que não possibilitam a compreensão do uso para cada indivíduo, que por sua vez está inserido em um contexto social que possui seus costumes. Segundo Bruno, os contextos proibitivos potencializam o consumo.

Como lidar com o uso de drogas no contexto do acolhimento?

Valéria Pássaro iniciou sua fala compartilhando sua trajetória profissional e experiência com adolescentes na Casa das Expedições, Ubuntu e Casa Taiguara. Valéria compartilhou a percepção de que a nossa sociedade possui uma visão muito moralista sobre drogas, sobretudo nos serviços de acolhimento nos quais as equipes estão mais preocupadas com a trajetória das drogas do que com as histórias de vida dos meninos. Valéria aponta para a importância de reconhecer os diferentes tipos de uso, a fim de não haver generalizações na compreensão dos fenômenos.

Neste sentido, é fundamental trabalhar com projetos de vida, a partir das trajetórias individuais de cada um, e nos quais eles possam trazer seus desejos e não a partir de nossos valores morais. Neste sentido, é fundamental ver os desejos e possibilidades das famílias junto com elas e não por elas.

As drogas fazem parte da adolescência, por isso é fundamental ofertar espaços para diálogo, para que eles possam falar sobre a sua relação com as drogas e não espaços moralistas de questionamentos.

Valéria falou sobre uma perspectiva importante na relação entre os educadores/técnicos e os adolescentes, na qual os lugares dos profissionais reafirmam o lugar dos adolescentes podem ter no mundo. Neste sentido, que intervenções favorecem a possibilidade dos meninos recriarem seus lugares no mundo, com novas maneiras e perspectivas?

Os adolescentes não são todos iguais, é preciso olhar para eles individualmente, o que acaba não acontecendo no cotidiano dos SAICAS, que acabam por exercer uma atuação muito “robotizada” e careta, favorecendo a compreensão dos adolescentes como problema e tendendo a medicalização para a normatização. Se os médicos prescrevem, pode-se usar drogas lícitas, mas ilícitas nem pensar! Valéria trouxe importantes reflexões acerca da banalização da medicalização lícita.

Valéria ressalta a importância da revisão e reinvenção das formas de se receber os meninos, e sair da perspectiva do julgamento do certo e errado. Os adolescentes chegam fragilizados, muitas vezes sem perspectivas, nas quais a única “saída” é recorrer para o uso de drogas, e assim apresentam o melhor e o pior deles, como maneira de pedir ajuda, e se os abrigos não estão preparados para lidar com isso, acabam por colocar em prática atuações coercitivas que colaboram para as rupturas, fragilizando as relações e potencializando o uso de drogas.

Por fim, Valéria ressalta a importância de favorecer um espaço para pensar os desejos e projeto de vida, a partir da perspectiva do aqui agora e não do futuro, pois se eles não têm clareza sobre o que eles são e querem neste momento, como poderão pensar no futuro?

Valéria indica dois filmes que podem contribuir para o trabalho com os adolescentes e uso de drogas, que são: “Os alunos da sala 36” e o documentário “Tarja branca”.

Após a exposição dos especialistas, os participantes reuniram-se em pequenos grupos para discussão e trouxeram as seguintes questões para os especialistas:

  • Como lidar com as diferentes regras de serviço de acolhimento e família (na questão do apadrinhamento)? Por exemplo, o serviço trabalha com o adolescente, mas quando ele vai para a família, a realidade é outra.
  •  Como tornar as atividades e outros espaços tão atrativos quanto o prazer do uso de drogas?
  • Como lidar com a influência dentro do serviço de acolhimento, quando chega um adolescente que é usuário e acaba levando outros para o mesmo caminho?
  • Na prática, o que fazer frente as limitações da Rede?
  • Como uma equipe acolhe um adolescente com histórico de drogadição? Como realizar este trabalho com a Rede?
  •  Quais as possibilidades de realizar um trabalho de redução de danos nos SAICAS?
  • Como trabalhar com a família que rejeita a criança/adolescente por conta do uso de drogas?
  • Como trabalhar a questão do uso de drogas enquanto equipe, quando o usuário é a família?

Para abordar o tema drogas com os adolescentes, é fundamental que não seja através de um discurso moralista ou médico, mas sim através das escolhas e consequência delas, de maneira individual. Neste sentido, trabalhar a autonomia, na qual os adolescentes possam refletir e realizar escolhas de maneira responsável é um caminho. A autonomia é um processo que deve ser realizado desde pequenos, e não às vésperas da maioridade. Outro aspecto fundamental é reconhecer as qualidades e potências dos meninos, e não só para a sua relação com as drogas.

No que tange às possibilidades de trabalho em Rede, é importante trabalhar sobre a perspectiva de parcerias para além dos serviços gratuitos, e atuar com maior ampliação e apropriação da cidade para os meninos, e sair da lógica de que “pobre” só pode fazer atividades gratuitas. O papel do abrigo é ajudar a Rede a reconhecer os meninos em sua totalidade, e a participação da família é fundamental.

Sobre a questão de drogadição na Rede, é fundamental ter clareza do que se busca e quais são os equipamentos que atendem a demanda em questão. Ainda sim, é fundamental atuar de maneira criativa, através das próprias Redes afetivas que os meninos estão constituindo, para que seja possível ofertar outras possibilidades de satisfação e prazer que as drogas causam.

Para assistir aos melhores momentos da Oficina, acesse o link:

https://www.youtube.com/watch?v=k48N89DarDA&list=PLnXe9VZ1ye9xUHW2ctyXsKVNuG9I4_7TO