No dia 18 de fevereiro de 2017, foi realizada a oficina “Adolescência e Autonomia: A Experiência do Grupo nÓs", que contou com a participação do jovem estudante de artes Willian Jonathan e a equipe do Grupo nÓs, Mahyra Costivelli e Marcelo Melissopoulos. Nesta ocasião, foi lançada a sistematização do Programa: “Adolescentes em transição: o trabalho de preparação para a vida autônoma, fora das instituições de acolhimento”.

Willian Jonathan iniciou o encontro com a realização de uma atividade com os participantes da oficina, em que alguns deles eram vendados e deviam ser conduzidos por outros participantes não vendados em um caminho de obstáculos. Após a atividade, Willian relatou ao grupo as principais dificuldades que experimentou quanto se viu diante da eminência de não poder viver mais em um abrigo.

Segundo Willian, a partir dos 17 anos, a possibilidade de mudança “mexeu muito com o seu emocional”, sendo que passou a ter muito medo do que poderia acontecer com ele, já que conhecia o relato de jovens que tinham ido morar em repúblicas e em outros locais cujas experiências não foram boas. Dentre as dúvidas e questões que abalavam o “seu emocional”, estava o desafio de encontrar uma atividade profissional que se identificasse. Apesar de seu primeiro emprego ter sido no McDonald´s aos 16 anos e de ter trabalhado em diferentes locais, uma das questões que passava constantemente por sua cabeça era em relação ao que realmente gostaria de fazer e como poderia se manter morando sozinho. Assim que saiu do abrigo, Willian conta que foi morar em uma república, mas que a experiência acabou não dando certo porque ele estava muito fechado neste momento da vida.

 Quanto aos fatores que o ajudaram a atravessar este período de transição, o jovem menciona a importância de pessoas e organizações que não desistiram dele. Dentre eles estão os seus padrinhos afetivos com quem atualmente mora e que, segundo ele, são a sua verdadeira família. Além dos padrinhos, alguns educadores do abrigo e os próprios técnicos do Grupo Nós foram fundamentais nesta etapa. Willian ainda acredita que um dos principais aspectos que ajudam os adolescentes no período de saída do abrigo é o afeto dos educadores. Para ele, o “afeto ajuda muito na vida” e a possibilidade de troca com os educadores é fundamental para fortalecer os adolescentes de maneira que se sintam amparados.

 A oficina seguiu com a apresentação do Grupo Nós. Mahyra Costivelli explicou que desde 2009, o Instituto Fazendo História já tinha uma grande preocupação em realizar um trabalho com os adolescentes que estão saindo dos abrigos devido à maioridade, sendo que em 2011 ela e outros técnicos do Instituto começaram a esboçar um projeto específico para essa população.  A proposta inicial era a de uma república que trabalharia de forma gradual a autonomia dos adolescentes, porém, ao apresentar o projeto para os jovens, a equipe percebeu que a proposta não ia de encontro ao que eles queriam. Neste sentido, o Grupo Nós foi reformulado e construído a partir da escuta das opiniões e sugestões dos adolescentes que estavam nos abrigos e que participariam das atividades.

Inicialmente foram definidos os quatro eixos de trabalho e que ainda hoje permanecem enquanto eixos das atividades do programa. São eles: 1) “dinheiro”, devido à importância dos jovens poderem se organizar financeiramente, já que muitos têm dificuldade em controlar os gastos e planejar este aspecto da vida; 2) “cidadania”, criado a partir da constatação de que muitos jovens ao saírem do abrigo sentem que perdem todas as referências conhecidas, sendo fundamental desenvolver outros sentidos de pertencimento, como em relação à própria cidade; 3) “moradia”, porque muitos meninos e meninas acabam não participando do processo de escolha da moradia e não são consultados sobre onde desejam morar ao completarem 18 anos; 4) “trabalho”, já que é muito difícil a construção de um projeto profissional.

Ao relatar todo processo de construção do Grupo Nós, Mahyra esclareceu que ao longo dos seis anos houve vários aprendizados para todos os envolvidos e que a proposta está constantemente sendo revista a partir da experiência e do dia a dia com os adolescentes. Um dos pontos centrais do programa é o trabalho com a autonomia dos adolescentes que fazem escolhas e se responsabilizam por elas, sendo que a equipe tem que aprender a tolerar as próprias frustrações ao longo do processo, já que muitas vezes a escolha do/da adolescente não é necessariamente aquela que o técnico de referência deseja para ele/ela. Outro ponto importante relacionado ao aprendizado foi o fato da equipe do Grupo Nós ter estabelecido metas muito ambiciosas no início do programa e, ao longo do tempo, perceber a importância de estabelecer metas mais realistas que pudessem ser atingidas aos poucos pelos participantes.

Em relação aos objetivos e metodologia do trabalho, Marcelo Melissopoulos explicou que o Grupo Nós tem como objetivo geral “acompanhar e facilitar o processo de transição de adolescentes em situação de acolhimento para a vida autônoma e inserida na comunidade”. O programa atende jovens a partir dos 16 anos com experiência de acolhimento que são acompanhados por um período de três anos. Todas as ações do programa visam à promoção da autonomia e o protagonismo dosjovens, para que, por ocasião do desligamento dos serviços de acolhimento, tenham possibilidades sólidas de construção e realização de seus projetos de vida. Para tanto, os participantes precisam de relações de respeito e confiança com pessoas que ofereçam suporte consistente e de longo prazo para que desenhem e realizem seus projetos de forma autônoma.

De acordo com Marcelo, no Grupo Nós os adolescentes participam de encontros em grupo com outros jovens que estão em situação semelhante e cada um possui um técnico de referência (adulto). Os encontros individuais com o técnico acontecem a cada 15 dias e visam acompanhar o jovem em todo o seu processo, esclarecendo dúvidas e auxiliando em seu projeto. Já os grupos temáticos, que visam o aprofundamento de um tema de interesse, acontecem com os demais participantes do programa uma vez por mês, bem como as saídas culturais que buscam promover a apropriação da cidade e ampliar as referências culturais dos atendidos. Além dessas atividades, o acompanhamento também é realizado por meio de atendimentos telefônicos e e-mails, havendo um grupo fechado no Facebook, que conecta todos os participantes, havendo informações sobre oportunidades de cursos, trabalho, atividades culturais, fotos das atividades, entre outros.

 Após a explicação sobre a metodologia de trabalho, Marcelo e Mahyra apresentaram o vídeo do programa, disponível pelo link https://www.youtube.com/watch?v=Dphu3Lc3TVo e apresentaram o Portal Nós voltado para os adolescentes atendidos e para os demais adolescentes em serviços de acolhimento
http://nosnomundo.org.br/.
 

1. Atividade em subgrupos

    Na terceira parte da oficina houve quatro estações para discutir boas práticas, desafios e estratégias relacionados aos quatro eixos do Grupo Nós: 1) moradia, 2) dinheiro, 3) trabalho e 4) cidadania. Todos os participantes rodiziaram e participarem dos debates nos quatro subgrupos, havendo uma sistematização final dos debates que foi apresentada para o grupo maior ao final da oficina.