No dia 23 de agosto de 2018 o Instituto Fazendo História promoveu a oficina “Crianças e adolescentes com deficiência: especificidades no acolhimento”,  que contou com a participação da especialista Solange Aparecida Emílio, psicóloga, professora universitária e pesquisadora do campo das deficiências e dos processos de inclusão e Ricardo Estevam, psicólogo, coordenador do CREAS Ermelino Matarazzo.

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Solange inicia sua fala enfatizando o quanto o desafio de se colocar no lugar do outro se intensifica quando este outro é uma pessoa com deficiência. Sintetiza historicamente como a sociedade se relaciona com pessoas que apresentam alguma deficiência evidente, inicialmente sacrificando e progressivamente mantendo-as vivas, mas em condições muito precárias e de segregação, nas denominadas instituições totais. Menciona a Declaração de Salamanca (http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/salamanca.pdf), elaborada em 1994, como uma referência no âmbito das normativas internacionais para a defesa da inclusão social de pessoas com deficiência. A legislação brasileira incorpora com certa agilidade tal Declaração, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB/96), porém de modo pouco afirmativo ao dispor no seu texto “preferencialmente” a educação inclusiva. O que refletiu em poucas alterações significativas na realidade educacional do país. A especialista enfatiza que foi a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (13.146/2015) que introduziu uma mudança paradigmática, na medida em que trouxe uma mudança no modo de ver tais pessoas e do direito pleno a inclusão.

A mudança no olhar refere-se a reconhecer que o problema não está localizado na pessoa e sim na relação com o meio, o qual impõe barreiras que dificultam ou impede sua inclusão social. Tal mudança incide em exigir de toda a sociedade a responsabilidade em eliminar barreiras para a inclusão da pessoa com deficiência e não só a família. Acrescenta que há dois conceitos importantes apresentados por essa Lei, o primeiro é acessibilidade, ou seja, garantir todos os mecanismos que tornam acessível lugares e serviços; e o conceito de desenho universal, que refere-se a compreender que tudo que o for criado, produto ou serviço, deve incluir pessoas com deficiência. A perspectiva introduzida pela Lei 13.146/2015 permite nos interrogarmos, de quem é o problema? Da pessoa com deficiência ou do corpo social?

Em seguida Solange apresenta a nomenclatura adotada atualmente para se referir a diferentes tipos de deficiência. Enfatiza a importância de se levar em consideração não só as denominações atualizadas, mas como as próprias pessoas com determinada deficiência preferem ser nomeadas. Exemplifica o caso das pessoas com deficiência auditiva e visual que preferem ser chamadas, respectivamente, de surdo e cego, por evidenciar mais claramente a condição que vivenciam.

Outro aspecto abordado foram os mecanismos de defesa inconscientes, dos quais três são apresentados e discutidos pela pesquisadora Ligia Amaral e que Solange amplia acrescentando mais dois mecanismos. Enfatiza que emergem na relação com a pessoa com deficiência e que não reconhece-los dificulta a construção de experiências inclusivas. O primeiro refere-se ao abandono explícito e o implícito, que refere-se a rejeitar com a justificativa muitas vezes de não se ter preparo ou condição, ou um cuidar que não cuida, deixando a pessoa em segundo plano. Outro mecanismo muito frequente é a superproteção que não reconhece quais são os recursos daquela pessoa, só identificando a deficiência.  Já o terceiro trata-se da negação, que aparece ao não se perceber objetivamente que a pessoa apresenta alguma limitação, que precisa de um cuidado. Há também outras formas de negação menos evidentes como: negação por atenuação, que leva a raciocínios como “não é tão grave assim, poderia ser pior”; por simulação que produz pensamentos como “é surda, mas é como se não fosse”; ou por compensação que leva a pensar “é cega, mas é tão simpática.” Já a racionalização se relaciona com a experiência do cuidador que entra em contato muito mais com as teorias sobre a deficiência do que com a pessoa. E por fim, a idealização, que projeta uma imagem idealizada na pessoa com deficiência como se ela não pudesse ser só boa em alguma coisa que faz, é preciso ser muito boa. A importância de saber sobre tais mecanismos é oferecer conhecimento sobre as próprias reações e não se deixar dominar, evitando produzir atitudes que excluem. Exemplifica no caso da superproteção, que produz a atitude de impedir que a criança e adolescente com deficiência possam experimentar se desenvolver a partir dos recursos que têm.  

A pesquisadora finaliza enfatizando o quanto é importante reconhecer o que é restrição da pessoa com deficiência na relação com o meio e é necessário a eliminação de barreiras e o que é necessidade de superação das barreiras pela própria pessoa de modo que ela não se identifique coma própria deficiência. Como fechamento apresenta dois vídeos www.youtube.com/watch?v=x68-nhx8WZ8 e www.youtube.com/watch?v=dnnGEJ35rr0.

Ricardo apresenta um pouco do seu histórico profissional que vincula-se a implantação de políticas públicas para pessoas com deficiência no município de São Paulo. Resgata um processo de discussão, no âmbito público, que passou a interrogar: o que é inserção? Era um tempo em que se utilizava o termo pessoas com necessidades especiais, o que hoje não corresponde ao modo correto de se referir que é pessoa com deficiência. Embora a compreensão era de que não bastava trazer para dentro, o que fundamentou a elaboração de um plano municipal para inclusão de pessoas com deficiência, ele nunca foi implantado de fato, porque segundo o especialista, é muito caro. Acrescenta que ao se compreender que incluir significa tudo para todos, exige-se uma alteração de mentalidade e também na estrutura dos espaços e serviços. Evidencia o quanto essa alteração é difícil, tomando como exemplo a própria oficina, que não estava preparada para incluir pessoas com deficiência.

O palestrante traz sua experiência na supervisão de serviços ao interrogar: como é o acolhimento de uma criança ou adolescente quando se sabe que possui alguma deficiência? Passa então a construir cenas de como seria vivido esta notícia pela equipe dos serviços de acolhimento. Fala do pânico e da tendência a não se querer essa criança ou adolescente. Acrescenta que, por mais que a equipe conheça a Resolução Conjunta CNS/Conanda Nº1, de 7 de junho de 2017, que oferece subsídios para contratação de mais educadores, isso não diminui a angústia.

Ricardo também defende a necessidade de reconhecer a pessoa para além da deficiência, que precisa de um acolhimento igual aos demais: de um vínculo de afeto e de compreensão das experiências difíceis que viveu, seja negligência, abandono ou outras violências.  Provoca ao interrogar se o problema é da criança e adolescente com deficiência ou de quem cuida? Enfatiza que embora se tenha um infinidade de tipos de deficiência há algo comum a todas, que refere-se, em todos os casos, se tratar de uma pessoa. Pondera também sobre o perigo de se relacionar com o rótulo e não com o ser humano que está na sua presença. Lança outras interrogações: por que a criança ou adolescente com deficiência assusta tanto?  Por que tanto medo? E arrisca uma resposta. “Por que eu me acho incompetente”. Afirma que o medo não pode gerar afastamento. Em seguida passa a questionar o vínculo dos participantes com seu fazer, avança, desse modo, nas indagações em relação: Ao diferencial: o que aceitaram oferecer ao iniciar o trabalho em um serviço de acolhimento? A como se veem: um cuidador ou orientador?Ao trabalho ser: tratar ou cuidar?

Levanta vários elementos sobre a dinâmica de trabalho em um contexto de acolhimento institucional que torna desafiador o espaço para pensar sobre: como trabalho com a criança e adolescente com deficiência? A solução que reconhece é por meio da discussão e cobrança de espaços para formação da equipe. Lembra que o papel com essas crianças e adolescentes é a mesmo que com os demais: preparar para o retorno ao convívio social. Todos da equipe são facilitadores do convívio social, seja imediato, seja após 18 anos.

Ricardo enfatiza muito a importância do trabalhador se relacionar com o seu fazer como um trabalho e não como emprego, em que o desejo de fazer a diferença esteja vivo, para isso a mudança de postura e de olhar é imprescindível. Lembra que os serviços são lugares de crianças vivas e não robôs, onde há movimento e bagunça, o que expressa lugar de vida, afirma que se é lugar de vida é lugar para crianças e adolescentes com deficiência. O especialista acrescenta a importância no cuidado de como se olha a família de um acolhido com deficiência, pois a tendência é olhá-la com muita exigência, diminuindo as chances de uma reinserção familiar. Também questiona sobre o olhar dominante sobre a criança e adolescente com deficiência como não adotável, o que não representa a realidade e inviabiliza que essa possa sim ser uma das alternativas. 

Ricardo finaliza a oficina enfatizando que esse trabalho não é fácil porque há uma identificação com a criança – não é fácil olhar para aquele acolhido e reconhecer que ele precisa de você inteiro. Isso exige que o profissional vá continuamente atrás do conhecimento: saber sobre ele, sua história e sua singularidade, não paralisando em uma visão reduzida sobre a deficiência.