No dia 14 de abril de 2018 foi realizada a oficina Adolescência: Como Trabalhar a Autonomia?. A proposta do encontro foi fazer com que os adolescentes que vivem ou já viveram em serviços de acolhimento pudessem falar sobre suas experiências e apresentar aos participantes os aspectos que acreditam que são importantes para o desenvolvimento da autonomia dos acolhidos.

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O encontro iniciou com um aquecimento liderado pela técnica Laís Gonçalves Boto do Programa Grupo Nós do Instituto Fazendo História (http://www.fazendohistoria.org.br/grupo-nos/). Em seguida, a jovem  Mayara, de 18 anos, que participa do Grupo Nós apresentou os principais aspectos que podem auxiliar ou atrapalhar na construção da autonomia dos adolescentes nos diferentes serviços de acolhimento. De acordo com a palestrante, um primeiro aspecto fundamental é poder sentir-se escutada pela equipe do serviço. Outros pontos fundamentais relacionados à interação com a equipe dos serviços são:

  1. sentir que a equipe confia no acolhido
  2. o adolescente poder se expressar com o profissional que desejar
  3. apoio para o acolhido construir pensamentos críticos e reflexões
  4. o adolescente poder escolher o que quer ganhar e de fato obter coisas que tenham a ver com ele/ela e que possam levar consigo quando sair do abrigo
  5.  direitos iguais para os meninos e as meninas
  6.  liberação dos aparelhos eletrônicos na casa mediante combinados pré-estabelecidos
  7.  planejamentos de horários visíveis: agenda, lousa e cartaz
  8. trabalhar com dinâmicas e temas do cotidiano (sexo, direitos, drogas)
  9.  realizar uma reunião semanal com todos para construção de combinados e regras
  10. aumentar o trabalho com as famílias.  

Em relação aos pontos podem prejudicar o desenvolvimento da autonomia, estão:

  1. despreparo da equipe para lidar com as características de cada adolescente,
  2. o/a adolescente não saber as decisões que são tomadas sobre a sua vida,
  3. profissionais sem “mente aberta” para mudar,
  4. equipe que só saber mandar, fazendo com que o/a acolhido/a sinta-se sem liberdade
  5. não ter acesso à internet,
  6. profissionais sem cuidado ao lidar com a saída do jovem do abrigo, falando frases como: “tá chegando sua hora, você que sabe, faz o que você quiser" ou "logo, logo vai sair, e se não se preparar vai morar na rua”,
  7. ausência de apoio para dificuldades escolares e
  8. rotatividade dos profissionais.

Ao longo de sua fala, Mayara discutiu as principais consequências dos itens acima elencados e apresentou o que pode contribuir ou prejudicar o desenvolvimento da autonomia a partir dos seguintes eixos: uso consciente do dinheiro, apropriação da cidade, projeto de trabalho e projeto de moradia. Seguem abaixo os principais pontos destacados:

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A palestrante encerrou sua fala pontuando que ao sair do abrigo, é importante ter pessoas que ajudam com apoio emocional nos momentos de crise, podendo ficar perto dos familiares e irmãos, tendo também a possibilidade de retornar e encontrar com os técnicos ou outros profissionais do abrigo.

Após Mayara, foi a vez do jovem Fernando de 23 anos contar a sua trajetória de vida e experiências em um serviço de acolhimento. Fernando passou por dois abrigos e desde os 18 anos praticamente mora sozinho. Ele relatou que foi para um abrigo com um ano de idade e na época a narrativa construída é que ele havia sido acolhido por maus tratos. Porém, aos 22 anos, acabou conhecendo a família e descobrindo que sua história não era exatamente a que constava nos processos. Até os 9 anos, Fernando cresceu em um local que, segundo sua experiência, não era bom porque havia “maus tratos” (ex. se fizesse bagunça, precisava se ajoelhar no milho, ficar de cócoras, apanhar de chinelo ou régua, etc.), tendo sido fechado por esta razão. Após esta experiência, o jovem foi para um outro abrigo, onde conseguiu ter experiências positivas. No entanto, Fernando acredita ser importante compartilhar alguns aspectos que poderiam contribuir para o desenvolvimento da autonomia dos adolescentes acolhidos.  

O palestrante relatou que muitas vezes o abrigo é chato para os adolescentes que vivem naquele espaço e, em diversos momentos, os jovens buscam fazer algo diferente, mas são impedidos com o argumento de que as regras não permitem que eles façam algo. Para Fernando o grande problema é que na maioria das vezes só existe o “não” sem haver a explicação do porquê o/a adolescente não podem fazer/praticar determinada ação.  Ele acha fundamental que os profissionais que estão no serviço possam conversar com os adolescentes sobre temas como “uso de drogas” de forma verdadeira, já que acabam não falando nada sobre temas mais polêmicos e na prática, quando saem do acolhimento ou quando ainda estão lá, aprendem diversas coisas no “mundo”, mas não podem discutir ou conversar dentro do abrigo. Para eles, os educadores são referências na vida dos acolhidos e deveriam ser uma “base de conhecimento” para as crianças e adolescentes, por exemplo, para explicar a importância da camisinha na vida sexual do adolescente.

Outro ponto levantado por Fernando é a importância dos acolhidos poderem ter meios de comunicação, como celulares e internet. Quando começou a trabalhar, percebeu que para se comunicar com ele, as pessoas do trabalho precisavam ligar no abrigo. Ele acredita ser fundamental que os jovens possam ter autonomia para conversar com as pessoas em geral.

Ao longo de sua fala, o jovem deixou claro que uma grande questão dos serviços de acolhimento é que eles são bons para “proteger”, porém, exatamente por isso, acabam tolhendo a liberdade de escolha dos acolhidos. Ele utilizou como exemplo o fato dele gostar muito de jogar videogame e querer ir para a cada de um amigo durante a semana para jogar e depois dormir lá. Segundo ele, já com 16 ou 17 anos, a regra era sempre “não” sem compreender que era importante que ele fosse, até porque aos 18 anos não teria mais o tipo de “proteção” do serviço. Para ele, a partir dos 15 anos, os serviços deveriam dar liberdade para os acolhidos poderem escolher e os profissionais dos serviços poderem confiar nas escolhas dos jovens. Também é importante que os educadores compreendam que os erros e as consequências negativas servem também para que os adolescentes possam aprender com as experiências. Em seguida, Fernando mencionou suas experiências e desafios relacionados ao uso consciente do dinheiro, trabalho e moradia.

No final de sua fala, Fernando relatou que durante todo tempo de acolhimento quis conhecer sua história. No primeiro abrigo, diziam para ele que tinha sido queimado e que, por isso, havia sido tirado da mãe. No segundo serviço, lhe disseram que o barraco em que morava tinha pegado fogo e que o juiz havido tirado ele da mãe porque ela era usuária de drogas e não cuidava bem dele. Aos 15 anos, quis conhecer melhor a mãe e sua história, mas o Fórum nunca o apoiou para ir atrás das informações. Depois dos 18 anos, ele começou uma série de pesquisas e descobriu onde a mãe morava e a coordenadora do Grupo Nós, Mahyra, lhe auxiliou a buscá-las, mas não conseguiram encontrá-la.

O tempo acabou passando e só aos 22 anos, quando conheceu sua mulher atual, os dois voltaram a buscar informações sobre sua mãe. Eles sabiam que ela era usuária de drogas, já tinha sido presa e por meio de diversas fontes, conheceu sua mãe que atualmente está presa e lhe disse que ele tinha tido meningite e que por esta razão, havia ficado com sequelas nas pernas e com algumas manchas pelo corpo. Também explicou que ela nunca tinha sido violenta com ele, inclusive porque quando ele foi acolhido, ela estava na prisão e ele morava com a avó. Atualmente o jovem visita sempre sua mãe e relata que segundo as guardas da prisão, sua mãe também mudou muito depois que o jovem começou a conviver com ela. Fernando finalizou o relato mencionando a importância dos acolhidos conhecerem sua história e que, no caso dele, os padrinhos afetivos e sua mulher foram fundamentais para que pudesse confiar em si e apostar na capacidade do amor.

Ao final das falas, a psicóloga e coordenadora do Grupo Nós, Mahyra Costivelli, expôs alguns dados do Brasil relacionados ao acolhimento. Hoje no Brasil há cerca de 40.000 crianças e adolescentes acolhidos, sendo 3 mil adolescentes com 17 anos. Há em todo país apenas 23 repúblicas para jovens (4 em São Paulo), sendo que cada república tem cerca de 8 jovens residentes, ou seja, cerca de 200 jovens vivem em repúblicas. Também há o dado de que 60% dos jovens entre 18 e 21 anos vivem em albergues. Para a psicóloga, a república é a única política pública desenhada para o jovem que sai do serviço de acolhimento e não atende as necessidades da realidade nacional. Mahyra mostrou como exemplo uma política pública recentemente implantada na Argentina que busca atender as necessidades dos jovens que saíram do acolhimento. A Lei 27.364 promulgada em 22 de Junho de 2017, garante trabalho com  jovens na transição do acolhimento para a vida adulta e independente. O núcleo da lei é criar um programa que garanta dos 18 aos 21 anos um subsídio econômico mensal equivalente a 80% salário mínimo e uma referência que acompanha o processo de transição. A referência (adulto que acompanhar o jovem), deve zelar pelas seguintes dimensões:

  • a) Saúde, saúde sexual e planejamento familiar;
  • b) Educação, capacitação e emprego;
  • c) Moradia;
  • d) Direitos humanos e educação cívica;
  • e) Família e redes afetivas;
  • f) Lazer e tempo livre;
  • g) Competências para vida independente;
  • h) Identidade;
  • i) Planejamento financeiro e gerenciamento de dinheiro.

Após as apresentações, foram formados subgrupos com a participação de diversos adolescentes que participam do Grupo Nós para propor e apresentar para todos os participantes, sugestões de políticas públicas voltadas para os jovens que saem dos serviços de acolhimento no Brasil.

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