A atual coordenadora do Grupo nÓs, Ana Raquel Ribeiro, e a assistente social do programa, Laís Boto, estiveram presentes no seminário “Desacolhimento por Maioridade e Proteção Social na Convivência", no dia 27 de agosto, organizado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP). Durante o encontro, elas apresentaram a metodologia e a experiência do programa.

Cerca de 50 técnicos do Judiciário e de serviços de acolhimento do estado de São Paulo estiveram presentes no evento. Além do público presencial, a conversa foi transmitida para outras 900 pessoas que também puderam comentar e mandar perguntas. 

O contexto

Para os jovens que vivem em acolhimento, a chegada à maioridade é um momento de grande desafio e, na maioria das vezes, acontece sem o devido preparo. O resultado é que muitos saem da proteção do estado sem condições e amparo para enfrentar os desafios dessa nova fase da vida. Com pouca rede de apoio social e emocional, muitos deles sentem-se sozinhos, perdidos e sem referências para seguir essa etapa da vida que exige autonomia e protagonismo.

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Esse é o retrato traçado por um levantamento inédito da Coordenadoria da Infância e da Juventude do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), a partir de dados coletados em todas as comarcas do estado. De certa forma, é uma realidade bem conhecida por quem acompanha de perto esses adolescentes, mas que, até então, carecia de dados que pudessem quantificar e registrar a situação enfrentada por jovens que saem todos os anos dos serviços de acolhimento ao completarem 18 anos.

De acordo com o mapeamento, o estado de São Paulo tem 8.801 jovens acolhidos com mais de 12 anos, sendo 1.166 com idades entre 16 e 18. No último ano, 257 deixaram os abrigos por maioridade. Os serviços pesquisados relatam que promovem atividades voltadas à qualificação profissional, à preparação para autonomia financeira e emocional e à colocação no mercado de trabalho. No entanto, acabam esbarrando em problemas como falta de políticas públicas e projetos sociais específicos nos municípios, alta rotatividade de equipes e dificuldade de articulações com as redes de serviços sócio assistenciais. Muitos acabam não desenvolvendo com os adolescentes o Plano Individual de Atendimento, PIA, instrumento que prepara esse desligamento com ações concretas a partir de características e desejos desse jovem. Outro problema apontado no mapeamento é a falta de suporte financeiro e de alternativas de moradia para esse público.

Grupo nÓs

Diante de tantos desafios, o Instituto Fazendo História desenvolve o programa  Grupo nÓs, que ajuda a preparar a saída das instituições, nessa transição cercada de incertezas. Com diferentes estratégias de apoio, auxilia na construção de projetos de vida que façam sentido para o adolescente, estimulando a autonomia e o protagonismo nessa nova fase.

Ao longo de três anos, o adolescente é acompanhado mensalmente por um adulto de referência para orientá-lo e dar suporte em seus planos e projetos pessoais. Duas vezes por mês, acontecem grupos temáticos sobre moradia, trabalho, uso do dinheiro e cidadania. Entre pares, os jovens trocam experiências, fortalecem suas identidades e têm a possibilidade de formar novos vínculos afetivos e de suporte para as questões que enfrentam.

Um desligamento bem-sucedido é fruto de um longo processo de trabalho integrado entre o jovem e sua rede de apoio, composta de técnicos e de referências afetivas. Apoiar a vida autônoma de um jovem faz parte da garantia de direitos e da construção de um país melhor para todos.

Colaborou Gabriela Cupani