No dia 15 de maio, o Serviço Social celebra o dia desta profissão que tem sua origem permeada pelo conservadorismo, mas que floresceu, nas trincheiras da resistência da classe trabalhadora, como prática comprometida com a transformação social. Em respostas às demandas apresentadas por uma sociedade desigual, sua trajetória foi sendo reestruturada até consolidar-se como uma atuação crítica, consciente, ética e política que neste ano completa 90 anos de atuação.

Assim como acreditamos que as histórias de vida são importantes na construção social dos sujeitos, também compreendemos que  a trajetória dessa profissão é parte essencial de sua identidade. Com raízes históricas profundamente ligadas à caridade, à filantropia e ao assistencialismo, o Serviço Social teve sua prática marcada, durante muitas décadas, por essas características, que precisaram ser revisitadas, questionadas e transformadas ao longo do tempo. Segundo Iamamoto (2007),

 O Serviço Social nasce inserido na divisão social e técnica do trabalho como resposta às expressões da questão social produzidas pelo capitalismo. Entretanto, sua origem vinculada às ações filantrópicas contribuiu para a construção de uma visão limitada sobre a profissão, frequentemente associada à prática do “ajudar” e não ao exercício de uma atividade técnico-científica.

Na reestruturação do Serviço Social, a profissão rompe com o caráter caritativo e passa a atuar na defesa intransigente dos direitos, partindo do entendimento de que a Assistência Social deve constituir-se como política pública, para que os direitos possam ser legitimados, garantidos e efetivados. E é na identificação das contradições da sociedade capitalista e nas expressões da questão social, que o Serviço Social, por meio de seus/suas profissionais, passa, segundo Piana (2009), a pensar as políticas sociais como respostas a situações indignas de vida da população pobre. Nesse movimento, torna-se possível reconhecer a mediação que as políticas sociais representam no processo de trabalho profissional diante das demandas apresentadas pela população usuária. Enquanto a lógica caritativa individualiza a pobreza, a política pública reconhece que as vulnerabilidades sociais são produzidas por relações econômicas, sociais e políticas. Por isso, o acesso à saúde, educação, assistência social, moradia e alimentação deve ocorrer como direito universal e não como concessão.  

É nesse contexto que nos esbarramos com a sedimentação da profissão, especialmente na assistência social, que busca minimizar os impactos da desigualdade social. Os indivíduos e cidadãos usuários, ao serem acompanhados, muitas vezes necessitam de encaminhamentos para equipamentos públicos e serviços especializados, pois o impacto positivo na vida desses cidadãos nem sempre se dá de forma imediata. Muitas vezes, o processo de transformação e emancipação se dá na ruptura com a transversalidade da pobreza, construindo novas trajetórias e abrindo caminhos para a cidadania, ainda que de forma lenta e contínua. 

É também nesse processo, muitas vezes longo e desafiador, que precisamos estar atentos para não reproduzir, em nossa atuação, os estereótipos presentes na  origem da profissão. Em determinados momentos, diante das inseguranças produzidas por esta sociedade capitalista e desigual e na insuficiência de políticas públicas ao cidadão-usuário, o caminho da tutela se torna atraente e quase imperceptível. Contudo, o compromisso ético do Serviço Social é possibilitar que cada sujeito de direitos reconheça a si mesmo como autor da  sua própria história, capaz de  construir seus próprios caminhos e destinos resistindo a toda forma de opressão e paralisação. 

Trabalhar na a assistência social é atuar não apenas sobre o passado e o presente, mas também o futuro. É acreditar na possibilidade de  romper ciclos transgeracionais de violação de direitos e compreender que, embora os resultados nem sempre sejam imediatamente visíveis, eles podem e irão refletir nas próximas trajetórias e gerações.

Gabriela Silvério e Isabelle Pereira

REFERÊNCIAS UTILIZADAS:

IAMAMOTO, Marilda Villela. O Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional. 13. ed. São Paulo: Cortez, 2007.

PIANA, MC. A construção do perfil do assistente social no cenário educacional [online]. São Paulo: Editora UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009. 233 p. ISBN 978-85-7983-038-9. Available from SciELO Books <http://books.scielo.org >. 

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