No dia 24 de julho de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a 9ª oficina do Projeto Redes de Conhecimento, com o apoio do FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), na Biblioteca Jamil Almansur Haddad, região de Guaianases. O encontro teve como tema “Cuidar e escutar: o letramento racial para o sistema de garantia de direitos de crianças e adolescentes” e foi direcionado aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, Rede Socioassistencial e Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.
Os profissionais convidados para essa oficina foram: Washington Góes: Doutorando em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), Mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), especialista em Cultura, Educação e Relações Étnico-Raciais (USP) e em Socioeducação (UnB); e Nayane Marques: Licenciada em História (UNISA) e Pedagogia (FEUSP), mestranda em Educação na FEUSP, na linha Cultura, Filosofia e História da Educação.
Góes iniciou a formação delimitando o objetivo de promover a reflexão sobre o impacto das relações raciais nas práticas de cuidado e escuta de crianças e adolescentes, visando a equidade racial. Alertou que, no Brasil, é impossível discutir infância e adolescência sem considerar marcadores sociais como raça, classe e gênero. Segundo ele, a infância não é um conceito universal ou biológico fixo, mas sim, uma construção histórica e social, que diferentes sociedades e contextos produzem diferentes noções de ser criança. No cenário brasileiro, apenas um grupo social historicamente desfrutou do ideal de "infância protegida", enquanto os demais foram empurrados para a margem. Falou sobre a doutrina da situação irregular a partir do antigo Código de Menores, que permitia ao Estado intervir e institucionalizar seletivamente a infância pobre, negra e indígena. O termo "menor" virou sinônimo de vulnerabilidade criminalizada. Seguiu abordando a mudança de paradigma, a partir do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), para a Doutrina da Proteção Integral, que reconhece todas as crianças e adolescentes como sujeitos de direitos e pessoas em desenvolvimento.
Dando sequência ao debate, Nayane Marques trouxe uma sua contribuição teórica sobre a estrutura do racismo no país. A profissional caracterizou a raça como uma construção social, mencionando que embora não possua base biológica, a raça opera como uma ficção política que, ao longo da história, serviu para hierarquizar a humanidade, justificando opressões e a distribuição desigual de privilégios. Aprofundou a diferenciação entre dois conceitos essenciais como: Raça - Categoria política e social baseada em traços fenotípicos e dinâmicas de poder, e Etnia - Categoria cultural, que envolve pertencimento a um grupo com língua, tradições, cosmologias e territórios partilhados. Fez uma crítica quanto ao debate público no Brasil, indicando que a discussão sobre o racismo costuma ser polarizada estritamente entre negros e brancos. Essa centralidade invisibiliza os povos indígenas, silenciando suas demandas específicas e as violências que suas crianças e adolescentes sofrem sistematicamente. Para instrumentalizar a rede de proteção, os profissionais revisitaram as tipologias do racismo, fundamentais para identificar as violações no cotidiano institucional tais como: Racismo Individual; Racismo Institucional e Racismo Estrutural.
Por fim, os profissionais indicaram que o acesso à justiça e mediação qualificada são indispensáveis quando ocorrem episódios de racismo, para transformar a cultura institucional e curar os traumas gerados pela discriminação. Racismo é crime inafiançável e imprescritível no Brasil. O Sistema de Garantia de Direitos deve ser rigoroso na denúncia, notificação e encaminhamento legal dos casos. Praticar o letramento racial é, portanto, desenvolver a habilidade de escutar a dor do racismo sem minimizá-la e agir com a firmeza que a proteção da infância brasileira exige.
Confira o vídeo da oficina completa: