Escutar, às vezes, parece pouco. Porém, as ciências têm dito: a escuta cura. Cura tem sido muitas vezes confundida com medicalização, com o cada vez maior abuso de substâncias para acabar com um sintoma, porém, no olhar das diversas e unificadas visões de povos tradicionais, inclusive a partir da matriz africana: curar é encontrar o equilíbrio possível. É aí que a escuta cura, que a fala cura e digo não somente da fala oralizada mas da fala que se expressa no silêncio, no olhar, no desenho amassado dentro da mochila, no poema que esconde na última folha do caderno, nas rimas que guarda no bloco de notas do celular, na lágrima contida, no riso sincero, no “séloko tio.”

É a partir desse encontro — que tem como instrumentos básicos a fala e a escuta — que se constrói o que, no grupo nÓs, chamamos de acompanhamento individual: um momento de encontro entre o jovem e seu “técnico de referência”. A cidade e seus espaços mediam esse encontro e a escolha desse espaço também dá o tom da conversa: bibliotecas, parques, espaços institucionais, saraus, batalhas de rima, a calçada da rua, a videochamada, a lanchonete, centro esportivo, o banco da praça. Muitos são os espaços possíveis para esse encontro em que o adolescente pode falar sobre o que deseja falar e escutar o técnico quando lhe faz sentido naquele momento. O que chamamos de “eixos de trabalho” formam encruzilhadas na mente deste técnico (uma pessoa educadora com sua caixa de ferramentas) na busca por dar um retorno, um conselho, um sentido, uma orientação para todo aquele universo que o jovem traz consigo. Haverá dias em que podemos, enfim, cumprir nosso papel institucional de orientá-los sobre educação financeira, trabalho, educação, cidadania, cultura, identidade, moradia e tudo isso que compõem seu projeto de vida. Mas também haverá dias em que teremos que mobilizar recursos, apresentar limites e intervir na realidade para tão somente garantir a continuidade daquela vida ameaçada pelo projeto de morte estruturado em nosso país. E haverá ainda dias - e esses são os mais importantes - em que vamos só observar o universo, contar as estrelas, lembrar dos sonhos e contar de novo sobre as coisas bonitas. É nessa ginga de respeito que às vezes somos convidados a ver o desenho amassado na mochila ou a ler o desabafo escrito na última folha do caderno. Às vezes somos nós quem convidamos a olhar e lembrar que há algo escrito na última folha do caderno e que ali, onde a pessoa deságua suas fraquezas, que se esconde sua força e caminho. Temos falado sobre o direito de sonhar mas às vezes precisamos nos lembrar: de que são feitos os sonhos? Senão de desejos internos, tantas vezes soterrados pela violência mas que encontram no outro um sentido e apoio. Aqui chamamos de vínculo: esse fio que une uma pessoa a alguém ou a um grupo. Fio construído por aproximações e distâncias, atravessado pelo território, o gênero, a raça e que se estrutura a partir da escuta e do respeito, com a mediação de todo repertório teórico e prático do educador mas que, como diz o verso: “ao escutar uma alma humana seja apenas outra alma humana.”

A escuta - que pode até envolver o nada simples exercício de permanecer atento e em silêncio enquanto o outro fala - é esse estado de presença. Não como um burocrata que está sentado num guichê, aguardando a solução do seu problema e pronto pra te ofertar um novo produto mas o estado de um ser humano que, mesmo atravessado por suas questões, ansiedades e precarizações, naquele momento combinado escolhe ouvir alguém e buscar as perguntas certas para ajudá-lo a enxergar o que de melhor carrega em si e quais as melhores possibilidades para se tentar viver o bem-viver mesmo neste sistema, respeitando e provocando-o a pensar sobre sua visão de si e do mundo mas a partir da história, do entorno e da ancestralidade do jovem e não só a partir do viés dos jornais sensacionalistas que enxergam em nossa juventude não uma vida complexa mas um problema social ou um “caso” e se essas vidas são tratadas apenas como problemas sociais então não têm o direito de ser humanos, de ser complexos, “aquele louco que não pode errar”. No fim estamos também nós, adultos, entre erros e acertos, buscando caminhos pro mundo. Não nos cabe esperar de adolescentes todas as soluções para problemas que eles não criaram. Mas nos cabe contar de como está o mundo que deixamos para eles: 

“essas são nossas regras, algumas são importantes, várias são injustas, todas são questionáveis mas são essas regras que nós, humanos, conseguimos construir até aqui, esse é o funcionamento do mundo que recebemos, é o mundo que vivemos nossa adolescência, é o mundo que temos tentado mudar e é o mundo em que vocês já vivem. Vocês podem jogar o jogo com as regras de vocês mas serão julgados pelas regras do mundo, talvez até cedo demais em alguns casos mas, por mais que doa, esse é o mundo. Vocês não estão sós, estamos todos juntos habitando esse mesmo planeta, dividido de maneira injusta mas ainda o mesmo planeta. Nos sentimos sós o tempo todo mas não estamos. Vocês podem observar as regras do mundo, criticar as regras injustas mas jogar o jogo de um jeito que sua vida seja preservada, saudável e mais feliz. Não vai dar pra acertar sempre, mas tenta acertar com você mesmo a maior parte do tempo. Não é só sobre o conselho do tio do projeto ou da técnica do serviço, entende? Não é sobre o relatório da juíza. Lembra? Isso tudo é o jeito que os adultos encontraram para lidar com os problemas que os adultos criam. Mas o seu compromisso, o seu Projeto de Vida, é sobre você, é sobre sua vida, é sobre a vida dos seus. Que ferramentas você tem para enfrentar essa selva de pedra? Sabia que, se você fizer uma grana, preservar sua saúde e sua liberdade, talvez dê pra pegar uma praia no fim de semana? Se você se manter vivo agora, você terá a oportunidade de conhecer pessoas incríveis. Se você se ouvir agora você vai se afastar de pessoas que querem você se afundando. E eu sei, eu sei que às vezes você quer mesmo se afundar. Quando a gente sente que já não tem nada mesmo, que nossa vida nem tem valor, parece que tanto faz né? Naquelas noites, e você sabe de que noites eu to falando, naquelas noites em que o mundo desaba nas suas costas e você não tem ninguém pra conversar… Quem te levanta da cama quando o sol nasce? Sou mais você nessa guerra.”

Dizer o que cabe naquele momento. Não precisa deixar o relatório, o livro, o plano individual de atendimento na estante, dá pra trazer ele pra roda e ler junto. O projeto de vida não é só mais um protocolo jurídico. O projeto de vida é um mapa: amassado, rasurado, rabiscado, dobrado, molhado mas que carregamos sempre no peito. O projeto de vida é um diploma que a gente levanta e vê a nossa comunidade sorrir celebrando junto com a gente. O projeto de vida se sustenta no fino fio que puxa o jovem de volta todo sábado pro grupo mesmo depois de passar a sexta curtindo um baile ou jogando no celular, mesmo depois de fugir de tudo: ele volta. Não só porque tem o lanche daora, porque tem a bolsa-auxílio, porque tem o passeio legal. Justamente porquê escolher o lanche, a bolsa e o passeio ainda é garantir um compromisso consigo mesmo e com sua vida, é um acesso a direitos básicos. Mas o fio fino, que sustenta o projeto de vida e faz o jovem voltar pro grupo é o vínculo: o vínculo com os profissionais de educação, fortalecimento e cuidado e o vínculo com essa comunidade, com esses semelhantes com diversas histórias mas com uma experiência, profunda, em comum: não só o acolhimento mas os rompimentos que levam a ele. “A criança que não é abraçada pela aldeia a queimará para sentir seu calor”. É desse encontro com outros jovens que também queimariam o mundo se pudessem (mas que como não podem as vezes queimam a si mesmos) que se reconstrói e se nutre um vínculo consigo mesmo e com o mundo, apesar e muito além dos abandonos. Confluência é o nome desse encontro. É nas brechas do sistema que vamos nos confluenciando e que nossas comunidades vão sendo recriadas e é o elo de uns com os outros, com um grupo, com um chão, um território, uma comunidade o que sustenta o nosso amor próprio, o nosso compromisso e o tronco dessa árvore que aqui escolhemos chamar de “Projeto de Vida.” 

“Quando a gente confluência, a gente não deixa de ser a gente, a gente passa a ser a gente e outra gente - a gente rende.

A confluência é uma força que rende, que aumenta, que amplia.” 

(Mestre Nego Bispo)

 Igor Gomes Xavier

REFERÊNCIAS UTILIZADAS:
Mestre Nego Bispo: https://revista.historiaoral.org.br/index.php/rho/article/download/1588/106106106452

nÓs no Mundo: https://nosnomundo.org.br/
PONTE - O que é necropolítica: https://ponte.org/o-que-e-necropolitica-e-como-se-aplica-a-seguranca-publica-no-brasil/
Documentário: O direito de sonhar: https://www.youtube.com/watch?v=3rnLBCgmDrU

Racionais MC’s - Sou + você: https://www.youtube.com/watch?v=TB5gzXCAx7o

Racionais MC’s - Nego Drama: https://www.youtube.com/watch?v=o50J2xg8-sU

Precarização do trabalho e saúde mental dos (as) assistentes sociais: https://www.scielo.br/j/rk/a/QdGRxJyzXf8kPyKJJrtZF7L/?lang=pt

Bem-viver e reparação: a luta das mulheres negras por saúde e equidade: https://abrasco.org.br/bem-viver-e-reparacao-a-luta-das-mulheres-negras-por-saude-e-equidade/