O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) comemora mais um ano de existência. Desde sua criação, esse documento fundamental mudou de maneira significativa a forma como o Brasil enxerga a infância e a juventude, transformando meninos e meninas em sujeitos de direitos que merecem proteção integral. No entanto, mesmo com os avanços legais, ainda enfrentamos barreiras culturais profundas.

Celebrar o ECA hoje é entender que meninos e meninas têm, acima de tudo, o direito de crescer com afeto, deixando no passado as narrativas  que silenciam e machucam. Neste sentido, convidamos você a refletir: Sobreviver a uma criação rígida significa que ela era a melhor opção?

Para muitos adultos, olhar para trás e lembrar da própria infância evoca memórias profundas, essas lembranças vêm acompanhadas de frases que, por gerações, justificaram o sofrimento como método educativo.

Bater não ensina o que é certo; ensina a ter medo de ser pego. Segundo o relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), a violência física ou psicológica gera respostas de estresse no cérebro em formação, podendo resultar em adultos mais ansiosos, inseguros ou que reproduzem a agressividade em suas relações cotidianas. Quando justificamos a palmada do passado, muitas vezes estamos apenas tentando normalizar uma dor que ainda não foi curada.

Apesar de ser considerado uma das legislações mais avançadas do mundo, o ECA ainda enfrenta uma barreira invisível, mas muito resistente: a nossa cultura. No ambiente doméstico, os velhos hábitos e ditados populares continuam justificando a dor e o autoritarismo como ferramentas de criação.

A violência contra a criança e adolescente raramente se apresenta de forma escancarada logo de início; ela costuma vir disfarçada de "sabedoria popular". Ao longo de gerações, fomos ensinados a normalizar certos comportamentos por meio de frases que repetimos sem pensar. 

Segue narrativas que herdamos para que possamos refletir a importância de entender por que elas já não cabem mais no presente.

- “Eu apanhei e não morri, virei um adulto de bem”: Sobreviver a um método doloroso não o torna correto. O objetivo da criação não é apenas a sobrevivência física, mas garantir a saúde emocional e a autoestima. Justificar a palmada do passado costuma ser apenas uma forma de tentar anestesiar uma dor que nunca foi tratada.

- “Engole o choro!”: Uma das ordens mais ouvidas na infância tradicional. Ela ensina a criança a reprimir suas emoções em vez de aprender a lidar com elas. O choro é comunicação e alívio. Quando obrigamos o silenciamento, geramos adultos que não sabem expressar vulnerabilidades ou frustrações.

- “Criança não tem querer” ou “Criança só fala quando a galinha cacareja”: Essas frases anulam a existência da criança como indivíduo, indo na contramão de tudo o que o Estatuto da Criança e do Adolescente defende. Aprender a ter voz dentro no ambiente familiar é o que ensina crianças e adolescentes a impor limites e se proteger de abusos no mundo lá fora.

- “No meu tempo não tinha essa frescura de depressão e ansiedade”: Essa narrativa invalida a saúde mental e tenta vender a ideia de que as gerações passadas eram mais fortes. A verdade é que o sofrimento emocional sempre existiu, mas era silenciado pelo tabu, pela falta de diagnóstico e pelo medo.

O ECA, reforçado anos mais tarde pela Lei Menino Bernardo (conhecida como Lei da Palmada), não nasceu para tirar a autoridade dos pais, mas para propor uma autoridade baseada no respeito mútuo. 

Educar dá trabalho e exige paciência. É aqui que entra a real importância do cuidado, vai muito além de garantir comida na mesa e escola. O cuidado essencial envolve:

Escuta ativa: Ouvir o que a criança tem a dizer, validando seus sentimentos (mesmo nas birras).

Limites com afeto: Estabelecer regras claras e firmes, explicando as consequências reais das ações, sem recorrer a agressões.

Exemplo: Entender que os filhos aprendem muito mais observando como os adultos reagem às frustrações do que pelo que eles dizem.

Proteger a infância é um dever de todos nós — família, comunidade e Estado. Quebrar o ciclo da violência geracional e abandonar velhos ditados dolorosos é o primeiro passo para construir uma sociedade melhor.

Não precisamos repetir os erros do passado para criar pessoas de bem. Podemos, sim, criar indivíduos conscientes, resilientes e éticos por meio do diálogo, do acolhimento e do cuidado constante. 

Aline Oliveira

Referências

BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ano 128, n. 135, p. 13563-13577, 16 jul. 1990. Disponível em: planalto.gov.br. Acesso em: 24 jun. 2026.

BRASIL. Lei nº 13.010, de 26 de junho de 2014. Altera a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), para estabelecer o direito da criança e do adolescente de serem educados e cuidados sem o uso de castigos físicos ou de tratamento cruel ou degradante. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, n. 121, p. 1, 27 jun. 2014. Disponível em: planalto.gov.br. Acesso em:  jun. 2026.

MCLAUGHLIN, Katie A. et al. Castigo corporal e resposta neural elevada à ameaça em crianças. Child Development, [S. l.], v. 92, n. 3, p. 1120-1132, abr. 2021. Tradução oficial. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/B09424  Acesso em: 01 jul. 2026.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Castigos corporais em crianças: o impacto na saúde pública. Genebra: Organização Mundial da Saúde, 2025. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/B09424. Acesso em:  01 jul. 2026.