No dia 29 de maio de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a 7ª oficina do Projeto Redes de Conhecimento, com o apoio do FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Espaço Comunidade Cultural Quilombaque, região de Perus. O encontro teve como tema “ Saúde Mental: A escuta no contexto do Acolhimento” e foi direcionado aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, Rede Socioassistencial e Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.
Os profissionais convidados para essa oficina foram: Paulo Bueno, psicanalista, psicólogo (PUC-SP), mestre e doutor em Psicologia Social (PUC-SP). Supervisor clínico e integrante do Departamento de Psicanálise com Crianças (Sedes Sapientiae), coordenador do Módulo Psicanálise e Sociedade do Instituto Gerar de Psicanálise, professor convidado do Programa Fellowship - 2021/2022 (Columbia University), colaborador do Instituto AMMA Psique & Negritude - 2020/2021, coordenador do Grupo de Estudo Clínica Psicanalítica e Relações Raciais e autor de "Coisas que o Pedro me ensina: crônicas de uma paternidade"; e Michele Borges, Psicóloga, Psicanalista, Membra do Fórum do Campo Lacaniano de SP e RJ, mestra e doutoranda em Psicologia Social na PUC-SP no Núcleo de Psicanálise e Sociedade, Pesquisadora do NCAF - SGD da PUC-SP, mestranda em Ciências Sociais (FLACSO Argentina).
A fim de explanar sobre o cenário atual dos serviços de acolhimento, Paulo propõe um resgate histórico necessário: a transição do modo asilar para o modo psicossocial. Indicou que a Reforma Psiquiátrica brasileira criou serviços substitutivos essenciais, como os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) e a RAPS (Rede de Atenção Psicossocial), porém, as amarras do passado ainda respingam no presente. Muitas vezes, o objetivo político do Estado ainda se resume a "manter a ordem pública", esvaziando o verdadeiro sentido do cuidado.
Nesse cenário, Paulo defende a consolidação da clínica ampliada a partir de três premissas: Direito Soberano - O sujeito da saúde mental não é apenas um diagnóstico; ele é, primordialmente, um sujeito de direitos; Demanda x Reivindicação - é preciso ir além da queixa imediata e entender o que o sujeito está reivindicando social e politicamente e Discurso Multidisciplinar - A saúde mental não pode ser reduzida ao discurso do psiquiatra ou a uma visão puramente assistencialista.
Num segundo momento, Michele traz o debate para a realidade prática dos abrigos e instituições, compartilhando dados de sua pesquisa sobre o fluxo que vai "da clínica para o institucional". Sua primeira grande crítica gira em torno da violência institucional. Muitas vezes, é a desproteção do próprio Estado contra as famílias vulneráveis que gera o motivo do acolhimento. Ao problematizar o preenchimento de documentos legais, a profissional aponta uma realidade incômoda: no Brasil, o Estado historicamente tutela a infância pobre e negra. Michele traça um contraste evidente entre os contextos sociais: Recorte de Classe - enquanto a classe média acessa redes de garantia mercadológicas, a periferia lida com a burocracia punitiva do Estado. Michele apresentou alguns exemplos de sua realidade profissional e realizou o paralelo com a abolição: fez uma analogia entre o modelo de proteção atual e o período pós-abolição no Brasil, onde corpos negros eram libertos formalmente, mas deixados à margem da sociedade, sem amparo estrutural. Neste sentido aponta o “desacolhimento” como reflexo desse passado. Ao completarem 18 anos, muitos adolescentes são desligados do sistema sem nenhuma garantia de inserção digna no mercado de trabalho ou na moradia, perpetuando o ciclo de vulnerabilidade.
Por fim, tanto a fala de Paulo quanto a de Michele convergem para um mesmo ponto: a necessidade de romper com lógicas isoladas. Não podemos reduzir o sofrimento psíquico à medicalização, assim como não podemos tratar o acolhimento institucional como mero depósito de corpos. A saúde mental e a proteção à infância exigem um pacto coletivo: é preciso garantir que a escuta seja um espaço de emancipação e que o direito à dignidade não dependa da classe social ou da cor da pele.
Assista a oficina na íntegra: