No dia 20 de agosto de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a 14ª oficina do Projeto Formação em Redes, iniciativa apoiada pelo FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Instituto Pólis. Com o tema “Sexualidade e Gênero no Serviço de Acolhimento para Crianças e Adolescentes: Perspectivas para a Prática Profissional”, a atividade foi direcionada aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, na Rede Socioassistencial e no Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.
A oficina contou com a participação de Beatriz Cruz, educadora em sexualidade, assistente social, multiartista e escritora, autora do livro Carro Cris e criadora do projeto Lá em Casa Tá Tudo Bem, iniciativa que articula diálogo, arte, literatura, prevenção de violências e educação para o cuidado. Beatriz atua com crianças, adolescentes, famílias e profissionais das redes socioassistencial e cultural, desenvolvendo oficinas, rodas de conversa, formações e experiências educativas sobre corpo, afeto, consentimento, diversidade e proteção. Seu trabalho propõe abordagens acessíveis, lúdicas e críticas, conectando cultura, raça, território e direitos humanos.
A convidada iniciou o encontro abordando o adultocentrismo, a partir da leitura da história “A Vida na Terra do Adultocentrismo”, da psicóloga e escritora Elânia Francisca, promovendo uma reflexão sobre como as perspectivas adultas podem limitar a escuta e a participação de crianças e adolescentes. A discussão também problematizou os tabus sociais e culturais que dificultam o diálogo sobre sexualidade e violência sexual, destacando que falar sobre sexualidade não significa antecipar experiências, mas compreender as diferentes dimensões que atravessam o desenvolvimento de crianças e adolescentes, como suas histórias de vida, relações familiares e afetivas, gênero, raça e classe. A provocação sobre “a criança que vemos e a criança que queremos ver” possibilitou questionar como crenças, expectativas e preconceitos podem influenciar a interpretação dos comportamentos, reforçando a necessidade de uma atuação profissional pautada na escuta, no acolhimento e na ausência de julgamentos.
Nesse sentido, a oficina reforçou que o enfrentamento da violência sexual deve reconhecer crianças e adolescentes como sujeitos de direitos, respeitando suas histórias, singularidades, limites e tempos. A atuação da Rede de Proteção deve priorizar a proteção integral, a construção de vínculos de confiança, a escuta qualificada e a articulação entre os serviços, evitando responsabilizar a criança ou o adolescente pela revelação da violência. A apresentação da Lei Federal nº 13.431/2017 reforçou que a maneira de escutar também constitui uma prática de proteção: uma escuta especializada, humanizada e não revitimizadora contribui para evitar novas violências. Assim, o principal desafio para os profissionais é superar práticas centradas apenas na identificação de sinais e construir espaços seguros, nos quais crianças e adolescentes possam ser ouvidos, respeitados e protegidos.
Confira o vídeo com a oficina completa: