O Dia Nacional do Educador Social é também o dia do nascimento de Paulo Freire, um dos maiores educadores brasileiros e também Patrono da Educação Brasileira. As duas celebrações na mesma data, nos fazem pensar sobre a reflexão que Paulo Freire trazia: ninguém educa sozinho. Educar acontece no encontro, na escuta, no diálogo e na troca das vivências. É justamente nesses momentos que a ação do educar social ganha sentido.

Quando falamos em educação, é comum pensarmos em sala de aula, um professor diante dos alunos, livros, cadernos e atividades. Mas a educação acontece em muitos outros espaços e de muitas outras formas e maneiras. Ela também acontece nas comunidades, nos projetos sociais, nos espaços de convivência, nos espaços e serviços públicos, nas organizações da sociedade civil e em tantos outros lugares onde pessoas se encontram para compartilhar sua vida e construir possibilidades.

Na Política de Assistência Social o trabalho do educador social está presente compondo as equipes dos serviços e envolve diferentes públicos,  contextos e realidades. A sua atuação pode ocorrer com crianças, adolescentes, jovens, adultos, idosos e famílias, participando de atividades diversas como em ações educativas, culturais, esportivas e comunitárias, rodas de conversa, oficinas e especialmente em ações voltadas ao fortalecimento de vínculos.

Isso pode acontecer na conversa com um adolescente que precisa de um espaço seguro para falar das suas emoções e decisões, na atividade em grupo em que uma criança descobre que pode expressar sua opinião, na roda de conversa em que uma família passa a conhecer melhor seus direitos, durante uma oficina em que alguém percebe uma habilidade que ainda não havia reconhecido em si. São situações que podem parecer pequenas, mas que podem fazer uma grande diferença na vida da pessoa que participa. Mais do que transmitir conhecimentos ou exercer uma tarefa, o educador social ajuda a criar espaços onde as pessoas possam falar, ouvir, questionar, participar e construir em conjunto  novas possibilidades e jeitos de ser no mundo.

ANTES DE ENSINAR, É PRECISO OUVIR

Cada pessoa que acessa um serviço ou participa de uma atividade traz consigo uma história, suas experiências, conhecimentos, dificuldades, sonhos, medos e diferentes formas de ver o mundo. Assim, o educador social não pode chegar acreditando que possui todas as respostas. Na verdade, nesta troca ele também aprende. Essa perspectiva de diálogo encontra forte inspiração no pensamento de Paulo Freire. Para Freire, a educação não deveria colocar de um lado quem sabe e, do outro, quem apenas recebe conhecimento. Educar envolve diálogo, troca e reconhecimento dos saberes que cada indivíduo carrega consigo.

A atuação do educador deve estar articulada e integrada com as equipes do serviço, em conjunto com de uma rede de proteção social dentro de um trabalho coletivo. As ações planejadas devem apresentar respostas afetivas e também efetivas a problemas sociais complexos e desafios de ordem histórica como desigualdade, desproteções, violência, discriminação e falta de acesso a direitos. Esse trabalho exige políticas públicas consistentes, serviços de qualidade e uma rede de proteção capaz de atuar de forma articulada. É fundamental que as pessoas compreendam melhor a realidade em que vivem, reconheçam seus direitos, desenvolvam novas possibilidades e participem das decisões que afetam suas próprias vidas. É por isso que falar sobre o educador social é também falar sobre direitos, cidadania e proteção social.

O RECONHECIMENTO COMO PROFISSÃO AINDA ESTÁ EM DEBATE

O Educador social é um trabalhador importante nas políticas sociais. Sua inserção começa na educação e depois passa a integrar a Política de Assistência Social - um processo fruto de mobilização e de luta. O educador social ainda enfrenta desafios relacionados às condições de trabalho, salários e à definição clara das suas ações. Quando falamos em fortalecimento de vínculos, autonomia e garantia de direitos é importante olhar para quem está na linha de frente dessas ações. Valorizar o educador social significa reconhecer sua formação, suas responsabilidades e a relevância de seu trabalho, garantindo condições dignas, formação continuada com qualidade, salários justos e segurança para a atuação profissional.

Para isso, existe uma mobilização nacional - o Projeto de Lei nº 2.941/2019, que regulamenta a profissão de educador social e tem origem no PLS 328/2015. Ela tem avançado no processo legislativo, mas ainda não se transformou em lei. A regulamentação da profissão pode representar um passo necessário e importante para dar maior clareza principalmente às diversas nomenclaturas (educador social, cuidador, orientador socioeducativo, atendente, mãe social), às atribuições e ao exercício da profissão, mas não pode ser o ponto final da valorização.


UMA DATA PARA CELEBRAR E TAMBÉM PARA QUESTIONAR

O Dia Nacional do Educador Social representa uma data para refletir sobre os desafios da realidade que os trabalhadores enfrentam. Que lugar damos aos trabalhadores que trabalham cotidianamente em plantões e diversas escalas para fortalecer vínculos? Quanto valorizamos os trabalhadores que ajudam a construir espaços de participação e convivência? Que condições estamos oferecendo para que eles realizem seu trabalho? E, principalmente: como podemos falar em garantia de direitos sem garantir direitos também para quem trabalha na defesa deles?

Mas também é uma data que deve ser comemorada. Paulo Freire nos ensinou que a educação está direta e profundamente ligada à possibilidade de alterar a realidade e essa transformação não acontece de modo isolado. Por isso, celebrar o dia do educador social é reconhecer e rememorar a potência desses encontros. É reconhecer quem está presente no cotidiano dos territórios e operacionalizando os diversos serviços que compõem as políticas sociais, quem escuta quando muitas vezes ninguém mais escuta, quem cria possibilidades e novos caminhos quando os caminhos parecem limitados ou inexistentes e quem acredita que cada criança, adolescentes e suas famílias têm potencial para participar e transformar sua própria história.

Dia 19 é Dia de Celebrar Paulo Freire e lembrar que não se educa sozinho.

Dia 19 é Dia de Celebrar o Educador Social, sendo a presença que acolhe, a escuta ativa e os encontros que ajudam a transformar realidades.

Quer saber mais sobre a atuação, os limites e as possibilidades do educador social e ampliar essa reflexão? Acesse a publicação produzida pela equipe do Programa Formação do Instituto Fazendo História, que reúne panorama histórico, dados estatísticos sobre o perfil dos educadores do Brasil, orientações e caminhos para compreender a importância desse trabalhador no SUAS e em especial nos Acolhimentos Institucional de Crianças e Adolescentes no processo de construção de vínculos, na garantia de direitos e em práticas educativas.  [1]

Referências

  • Brasil. Dia Nacional do Educador Social, Lei nº 13.580, de 26 de dezembro de 2017..

  • Instituto Paulo Freire. Biografia de Paulo Freire. Memorial Paulo Freire. Linha do tempo. Informações biográficas sobre Paulo Freire e sua trajetória.


[1] https://www.fazendohistoria.org.br/publicacoes  < o papel do(a) educador nos serviços de acolhimento institucionais para crianças e adolescentes>