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No dia 19 de julho de 2023, o Instituto Fazendo História realizou a segunda oficina presencial do Projeto Capacitação em Serviços de Acolhimento, com o apoio do FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Instituto Pólis. Com o tema “Brincar como direito na infância e na adolescência”, o encontro foi direcionado aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento e também a outros atores da Rede Socioassistencial e do Sistema de Garantia de Direitos da Cidade de São Paulo.

A oficina contou com a participação de Minéia Oliveira, arte-educadora, brincante, mediadora literária e idealizadora do Coletivo Brincando na Kebrada, graduada em pedagogia pelo Instituto Singularidades; e também de Natália Santos, artista e educadora, atuante nas frentes de cultura popular integrando as performances e as poesias e compondo releituras para a sua realidade, formada em direito e pós graduada em ciências sociais pelo Consejo Latino Americano de Ciencias Sociales e educação social pelo SENAC.

As convidadas iniciaram trazendo a ideia de que nos constituímos como seres brincantes a partir das experiências pelas quais passamos e que esse encontro seria um espaço para trocar vivências, promover lugares de afeto e compartilhar a teoria na prática. Logo, todos foram convidados a levantar das cadeiras e participar de uma série de brincadeiras, envolvendo técnicas de alongamento e respiração, repetição de movimentos, exploração do corpo e ritmos a partir das músicas e do canto e, também, uma brincadeira afro diaspórica, na qual tinham que se organizar em grupos, seguindo comandos, para não deixar um bastão cair.

Entre as propostas, Minéia e Natália provocaram a reflexão sobre a importância de estarmos atentos aos movimentos e quais são os corpos com quem estamos partilhando saberes, de entender a origem das brincadeiras - que marcam como as vivenciamos - e de valorizar nelas tanto elementos cooperativos, quanto competitivos. Abordaram como precisamos reconhecer a realidade da qual fazemos parte, nos preparando tanto para a coletividade, quanto para a competitividade, desenvolvendo a capacidade de lidar com as frustrações e conflitos e identificando qual o jogo posto, por exemplo, para a entrada no mercado de trabalho.

Em um segundo momento, Minéia e Natália propuseram que os participantes se dividissem em grupos e dialogassem acerca de como seus corpos vivenciaram as brincadeiras. Elas sugeriram que trouxessem as inquietações a partir do lugar das crianças e adolescentes com os quais atuam, de como poderiam se sentir ao atravessar essas experiências: quem são esses corpos e como eles chegam até as equipes dos serviços? Por que os adolescentes muitas vezes não chegam? E nosso papel enquanto mediadores, não ensinando, mas proporcionando brincares e fazendo trocas brincantes?

Antes de partir para a discussão no grupo maior, as convidadas se apresentaram de forma mais aprofundada, narrando de onde vêm e quais são as histórias e as memórias que as constituem. Elas partem de suas trajetórias pessoais, familiares e ancestrais, dos lugares que foram ocupando e das pessoas que foram encontrando no caminho, principalmente uma rede de mulheres, para contar como foram se aproximando das infâncias e das comunidades e descobrindo e construindo diferentes pedagogias e formas de educar, no coletivo. Elas reforçaram a importância do acesso aos diferentes brincares e materiais e de ocupar espaços diversos, algo que é negado, principalmente às crianças e aos adolescentes negros.

Em seguida, retomando o que foi discutido nos pequenos grupos, Natália e Minéia sugeriram a construção de um mapa de afetos, no qual os participantes registraram em filipetas e apresentaram as principais questões identificadas no trabalho com os brincares e as infâncias e, também soluções coletivas para lidar com elas. Esse foi um momento muito rico do encontro, no qual muitas pessoas se colocaram, trazendo, além das experiências profissionais, vivências de suas infâncias, adolescências e da relação com a maternidade e paternidade, para contribuir com a elaboração do panorama.

Sobre os principais desafios, apareceram a consideração de que criança e que adolescentes são esses que chegam aos serviços de acolhimento, com seus corpos perpassados por histórias de violência, as quais, muitas vezes, marcam como reagem às situações de proximidade e toque nas brincadeiras, podendo sentir-se invadidos ou, mesmo, podendo reproduzi-las; a timidez como uma característica que pode dificultar o se soltar nas atividades; a definição das brincadeiras possíveis a partir do gênero, onde reproduzimos estereótipos; a crença em um tempo restrito e uma forma correta de brincar, a partir da perspectiva do adulto; como inserir o brincar na realidade de diversas infâncias, principalmente, quando a questão da sobrevivência está em jogo; e o uso das telas se sobressaindo às outras formas de brincar.

Em relação às alternativas levantadas pelos participantes, destacaram-se o brincar como oportunidade de ressignificar, de experienciar outras possibilidades, de permitir, de fato, a vivência da infância e da adolescência e, também, como um caminho de reeducação dos corpos adultos e de construção de novos padrões, mais diversos, inclusivos e saudáveis; a criação de espaços acolhedores e cuidados, onde as crianças e adolescentes se sintam bem-vindos, possam ser protagonistas, se identificar e se despertar para o brincar; a construção de outros repertórios e vivências para que as telas não sejam a principal possibilidade de diversão e centro da atenção; a abertura do adulto a escutar e compreender que criança e que adolescente são esses que chegam, o que já viveram, o que sabem e o que gostam, quebrando rótulos e invisibilidades; e a organização e pressão social para implementação de políticas públicas de qualidade que favoreçam as famílias e as diferentes infâncias.

O encontro finalizou com as convidadas trazendo a importância de espaços como esse, de poder soltar o corpo e despertar a criança que está dentro de cada um, e estimulando a darem continuidade, entre os serviços e nos territórios, ao que foi pensado e construído nessa manhã, já que é a partir do fortalecimento de redes que as mudanças se efetivam.

Confira o vídeo com a oficina completa:
OFICINA - 19/07/2023 - BRINCAR COMO DIREITO NA INF NCIA E ADOLESCÊNCIA - FUNCAD

Imagem de abertura: Patrícia Prudêncio via Unsplash.