OFICINA  – Cuidar e escutar: o letramento racial para o sistema de garantia de direitos de crianças e adolescentes

OFICINA – Cuidar e escutar: o letramento racial para o sistema de garantia de direitos de crianças e adolescentes

No dia 24 de julho de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a 9ª  oficina do Projeto Redes de Conhecimento, com o apoio do FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente),  na Biblioteca Jamil Almansur Haddad, região de Guaianases. O encontro teve como tema “Cuidar e escutar: o letramento racial para o sistema de garantia de direitos de crianças e adolescentes” e foi direcionado aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, Rede Socioassistencial e Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.

Os profissionais convidados para essa oficina foram: Washington Góes: Doutorando em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), Mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), especialista em Cultura, Educação e Relações Étnico-Raciais (USP) e em Socioeducação (UnB); e Nayane Marques: Licenciada em História (UNISA) e Pedagogia (FEUSP), mestranda em Educação na FEUSP, na linha Cultura, Filosofia e História da Educação. 

Góes iniciou a formação delimitando o objetivo de promover a reflexão sobre o impacto das relações raciais nas práticas de cuidado e escuta de crianças e adolescentes, visando a equidade racial. Alertou que, no Brasil, é impossível discutir infância e adolescência sem considerar marcadores sociais como raça, classe e gênero. Segundo ele, a infância não é um conceito universal ou biológico fixo, mas sim, uma construção histórica e social, que diferentes sociedades e contextos produzem diferentes noções de ser criança. No cenário brasileiro, apenas um grupo social historicamente desfrutou do ideal de "infância protegida", enquanto os demais foram empurrados para a margem. Falou sobre a doutrina da situação irregular a partir do antigo Código de Menores, que permitia ao Estado intervir e institucionalizar seletivamente a infância pobre, negra e indígena. O termo "menor" virou sinônimo de vulnerabilidade criminalizada. Seguiu abordando a mudança de paradigma, a partir do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), para a Doutrina da Proteção Integral, que reconhece todas as crianças e adolescentes como sujeitos de direitos e pessoas em desenvolvimento.

Dando sequência ao debate, Nayane Marques trouxe uma sua contribuição teórica sobre a estrutura do racismo no país. A profissional caracterizou a raça como uma construção social, mencionando que embora não possua base biológica, a raça opera como uma ficção política que, ao longo da história, serviu para hierarquizar a humanidade, justificando opressões e a distribuição desigual de privilégios. Aprofundou a diferenciação entre dois conceitos essenciais como: Raça - Categoria política e social baseada em traços fenotípicos e dinâmicas de poder, e Etnia - Categoria cultural, que envolve pertencimento a um grupo com língua, tradições, cosmologias e territórios partilhados. Fez uma crítica quanto ao debate público no Brasil, indicando que a discussão sobre o racismo costuma ser polarizada estritamente entre negros e brancos. Essa centralidade invisibiliza os povos indígenas, silenciando suas demandas específicas e as violências que suas crianças e adolescentes sofrem sistematicamente. Para instrumentalizar a rede de proteção, os profissionais revisitaram as tipologias do racismo, fundamentais para identificar as violações no cotidiano institucional tais como: Racismo Individual; Racismo Institucional e Racismo Estrutural.

Por fim, os profissionais indicaram que o acesso à justiça e mediação qualificada são indispensáveis quando ocorrem episódios de racismo, para transformar a cultura institucional e curar os traumas gerados pela discriminação. Racismo é crime inafiançável e imprescritível no Brasil. O Sistema de Garantia de Direitos deve ser rigoroso na denúncia, notificação e encaminhamento legal dos casos. Praticar o letramento racial é, portanto, desenvolver a habilidade de escutar a dor do racismo sem minimizá-la e agir com a firmeza que a proteção da infância brasileira exige.

Confira o vídeo da oficina completa: 

OFICINA – “Matricialidade sociofamiliar em debate: Entre a proteção e o controle, qual é o lugar da família no SUAS?”

OFICINA – “Matricialidade sociofamiliar em debate: Entre a proteção e o controle, qual é o lugar da família no SUAS?”

No dia 15 de julho de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a décima quarta oficina do Projeto Formação em Redes, iniciativa apoiada pelo FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Instituto Pólis. Com o tema “Matricialidade sociofamiliar em debate: Entre a proteção e o controle, qual é o lugar da família no SUAS?”, a atividade foi direcionada aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, na Rede Socioassistencial e no Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.

A oficina contou com a participação de Aline Fogaça, assistente social na Prefeitura Municipal de São Bernardo do Campo/SP, Mestra e Doutora em Serviço Social PUC-SP/CNAM Paris. Professora da Faculdade Paulista de Serviço Social de São Caetano do Sul e supervisora técnica de equipes e serviços no âmbito do SUAS. 

Aline iniciou o encontro realizando breve resgate sobre o processo de construção e implementação da Política Nacional de Assistência Social (PNAS) e do Sistema Único da Assistência Social, destacando as mudanças de paradigma na concepção de família e na forma de compreender as situações de vulnerabilidade e desproteção social. Nesse percurso, discutiu-se o conceito de família em sua pluralidade, reconhecendo os diferentes arranjos e configurações familiares presentes na sociedade contemporânea. 

A especialista abordou a relação entre vulnerabilidade, negligência e desproteção social, problematizando a tendência de responsabilizar exclusivamente às famílias pelas situações vivenciadas. Aline destaca que a atuação profissional precisa estar atenta para que o acompanhamento não se transforme em mecanismo de fiscalização, vigilância ou responsabilização moral das famílias. O trabalho social deve favorecer a construção de vínculos, a escuta qualificada, o acesso a direitos e o fortalecimento da autonomia, reconhecendo as famílias como sujeitos de direitos e não como objetos de intervenção. 

Por fim,o encontro possibilitou refletir sobre o lugar da matricialidade sociofamiliar no SUAS, questionando a ideia de uma família permanentemente “capaz” de responder sozinha às demandas de proteção de seus integrantes. Reconhecer a centralidade da família não significa transferir para ela a responsabilidade pela garantia da proteção social. Ao contrário, implica reconhecer suas potencialidades e necessidades, compreendendo que o Estado possui responsabilidade fundamental na oferta de políticas públicas e na garantia de condições para que as famílias possam exercer suas funções de cuidado e proteção. 

Confira o vídeo com a oficina completa:

OFICINA  – "P.P.P. - Projeto Político Pedagógico"

OFICINA – "P.P.P. - Projeto Político Pedagógico"

No dia 12 de junho de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a 8ª  oficina do Projeto Redes de Conhecimento, com o apoio do FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Espaço Comunidade Cultural Quilombaque, região de Perus. O encontro teve como tema “P.P.P. - Projeto Político Pedagógico” e foi direcionado aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, Rede Socioassistencial e Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.

Os profissionais convidados para essa oficina foram: Valéria Gonçalves Pássaro - Educadora com formação em psicologia e pedagogia libertária, coordena e desenvolve processos de formação em política de assistência e desenvolvimento social. Foi Coordenadora Pedagógica; Diretora Executiva – Moradia Associação Civil: trabalho com crianças e jovens em situação de grave risco social; Diretora - Agência de Desenvolvimento Social – AGENDES e Joroedson Marçal de Almeida - Educador social - Pedagogo,  coordenou por 10 anos Casas das Expedições e Casas Taiguara; Especialista em Grupos Operativos – método Pichon Rivière; Experiência em diagnóstico institucional e estruturação de Plano Político Pedagógico.

Valéria iniciou sua fala de forma participativa, mapeando o entendimento e o contato prévio dos presentes com o PPP, a partir desta escuta junto à sua trajetória na área, destacou premissas importantes para o serviço. Indica que o PPP não se resume ao papel (escrito) - ele precisa estar gravado (inscrito) na postura diária dos trabalhadores do serviço, trazer a marca do grupo e estar fincado no território. O acolhimento não pode ser uma ilha isolada da comunidade.

Um serviço de acolhimento lida com vidas em constante transformação. Por isso, o PPP é um documento de escuta e integração, essencialmente flexível e que exige revisão periódica. O acolhimento atende a diversas realidades, idades e vivências - o projeto deve acolher essas singularidades, e não tentar padronizá-las.

Para Valéria, a elaboração do PPP funciona como um processo de conscientização. Construir esse plano exige responder a três perguntas que dão intencionalidade ao cotidiano do acolhimento: De onde eu vim? (O histórico do serviço e a bagagem da equipe); Onde estou? (O diagnóstico atual do serviço e as demandas do território) e Para onde se quer ir? (Os objetivos para o desenvolvimento e autonomia de cada acolhido). Segundo ela: "O PPP também é um embate do que queremos para a Política Pública."

Para fundamentar essa visão, ela apresentou seu repertório teórico e prático de outros projetos e autores da área, conectando as normativas técnicas do SUAS à prática diária.

Dando sequência à oficina, o educador Joroedson (Joro) trouxe a perspectiva prática de quem atua diretamente no cotidiano do atendimento, ao compartilhar sua experiência no Projeto Expedições, destacou dois pilares indispensáveis: um serviço de acolhimento funciona 24 horas por dia e envolve múltiplos turnos. Sem a integração da equipe de trabalhadores — cuidadores, educadores, equipe técnica e apoio —, o atendimento se fragmenta. Reforçou que o grupo precisa caminhar em sintonia para manter a mesma intencionalidade protetiva.

O ponto alto da fala de Joro foi a defesa da autonomia e do protagonismo dos acolhidos - o PPP não deve ser feito apenas para eles, mas com eles. Abrir o processo de produção das atividades para a participação ativa das crianças e adolescentes transforma a rotina do acolhimento, promove a escuta qualificada e fortalece o sentimento de pertença.

A oficina deixou claro que, na Assistência Social, o Projeto Político Pedagógico é um instrumento de garantia de direitos, ele tira o serviço do "ativismo sem rumo" e confere intencionalidade política e pedagógica a cada ação realizada dentro do acolhimento.

OFICINA – “Pensando o Acolhimento Familiar: Reflexões e práticas sobre medicalização das infâncias"

OFICINA – “Pensando o Acolhimento Familiar: Reflexões e práticas sobre medicalização das infâncias"

No dia 26 de junho de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a nona oficina do Projeto Formação em Redes, com o apoio do FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), na Embaixada Preta - Casa Preta Hub. O encontro teve como  tema “Pensando o Acolhimento Familiar: Reflexões e práticas sobre medicalização das infâncias”, o encontro reuniu profissionais dos Serviços de Acolhimento Familiar, famílias acolhedoras e trabalhadores da Rede Socioassistencial e do Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.

A oficina contou com a participação de Mariana Desenzi, psicanalista, graduada e mestre em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP. Mariana foi trabalhadora do SUS entre 2015 e 2025, atuou como coordenadora e supervisora de Cursos de Aprimoramento e Estágios Extracurriculares da PUC-SP entre 2021 e 2024, é membra do Laço Analítico/Escola de Psicanálise e atua como supervisora clínica.

Ao longo do encontro, Mariana Desenzi nos convidou a olhar com mais cuidado para os sentidos de medicalização e patologização e para a forma como nomeamos o sofrimento de crianças e adolescentes. Em muitas situações, comportamentos e sentimentos próprios da experiência humana podem ser rapidamente interpretados como sintomas ou problemas a serem tratados. Embora o saber médico possa ser um importante recurso de cuidado e a medicação possa, em alguns casos, contribuir para amenizar sofrimentos, ela não é o único caminho possível. Antes de reduzir uma experiência a um diagnóstico, é importante escutar o que aquela criança ou adolescente está vivendo, considerando sua história, seus vínculos, sua forma singular de expressar sentimentos e as condições que atravessam sua vida.

Essa reflexão também nos levou a pensar sobre a ambiência, os vínculos e as condições concretas de vida como parte fundamental do cuidado em saúde mental. Cada criança e adolescente possui recursos diferentes para lidar com as experiências e, por isso, mesmo quando vivem situações semelhantes, suas formas de responder podem ser muito distintas. Garantir direitos como moradia, saúde, educação, lazer e convivência familiar e comunitária também é cuidar. 

Nesse sentido, a oficina reforçou a importância de uma atuação multiprofissional e articulada em rede, capaz de reunir diferentes olhares e construir respostas menos naturalizadas e mais sensíveis à complexidade de cada situação. Mais do que buscar respostas prontas, trata-se de sustentar a escuta, ampliar as possibilidades de cuidado e reconhecer cada criança e adolescente em sua singularidade e em sua história.

Confira o vídeo com a oficina completa

OFICINA - "Saúde Mental: A escuta no contexto do Acolhimento"

OFICINA - "Saúde Mental: A escuta no contexto do Acolhimento"

No dia 29 de maio de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a 7ª  oficina do Projeto Redes de Conhecimento, com o apoio do FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Espaço Comunidade Cultural Quilombaque, região de Perus. O encontro teve como tema “ Saúde Mental: A escuta no contexto do Acolhimento” e foi direcionado aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, Rede Socioassistencial e Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.

Os profissionais convidados para essa oficina foram: Paulo Bueno, psicanalista, psicólogo (PUC-SP), mestre e doutor em Psicologia Social (PUC-SP).  Supervisor clínico e integrante do Departamento de Psicanálise com Crianças (Sedes Sapientiae), coordenador do Módulo Psicanálise e Sociedade do Instituto Gerar de Psicanálise, professor convidado do Programa Fellowship - 2021/2022 (Columbia University), colaborador do Instituto AMMA Psique & Negritude - 2020/2021, coordenador do Grupo de Estudo Clínica Psicanalítica e Relações Raciais e autor de "Coisas que o Pedro me ensina: crônicas de uma paternidade"; e Michele Borges, Psicóloga,  Psicanalista,  Membra do Fórum do Campo Lacaniano de SP e RJ, mestra e doutoranda em Psicologia Social na PUC-SP no Núcleo de Psicanálise e Sociedade, Pesquisadora do NCAF - SGD da PUC-SP, mestranda em Ciências Sociais (FLACSO Argentina).

A fim de explanar sobre o cenário atual dos serviços de acolhimento, Paulo propõe um resgate histórico necessário: a transição do modo asilar para o modo psicossocial. Indicou que a Reforma Psiquiátrica brasileira criou serviços substitutivos essenciais, como os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) e a RAPS (Rede de Atenção Psicossocial), porém, as amarras do passado ainda respingam no presente. Muitas vezes, o objetivo político do Estado ainda se resume a "manter a ordem pública", esvaziando o verdadeiro sentido do cuidado.

Nesse cenário, Paulo defende a consolidação da clínica ampliada a partir de três premissas: Direito Soberano - O sujeito da saúde mental não é apenas um diagnóstico; ele é, primordialmente, um sujeito de direitos; Demanda x Reivindicação -  é preciso ir além da queixa imediata e entender o que o sujeito está reivindicando social e politicamente e Discurso Multidisciplinar - A saúde mental não pode ser reduzida ao discurso do psiquiatra ou a uma visão puramente assistencialista. 

Num segundo momento, Michele traz o debate para a realidade prática dos abrigos e instituições, compartilhando dados de sua pesquisa sobre o fluxo que vai "da clínica para o institucional". Sua primeira grande crítica gira em torno da violência institucional. Muitas vezes, é a desproteção do próprio Estado contra as famílias vulneráveis que gera o motivo do acolhimento. Ao problematizar o preenchimento de documentos legais, a profissional aponta uma realidade incômoda: no Brasil, o Estado historicamente tutela a infância pobre e negra. Michele traça um contraste evidente entre os contextos sociais: Recorte de Classe - enquanto a classe média acessa redes de garantia mercadológicas, a periferia lida com a burocracia punitiva do Estado. Michele apresentou alguns exemplos de sua realidade profissional e realizou o paralelo com a abolição: fez uma analogia entre o modelo de proteção atual e o período pós-abolição no Brasil, onde corpos negros eram libertos formalmente, mas deixados à margem da sociedade, sem amparo estrutural. Neste sentido aponta o “desacolhimento” como reflexo desse passado. Ao completarem 18 anos, muitos adolescentes são desligados do sistema sem nenhuma garantia de inserção digna no mercado de trabalho ou na moradia, perpetuando o ciclo de vulnerabilidade.

Por fim, tanto a fala de Paulo quanto a de Michele convergem para um mesmo ponto: a necessidade de romper com lógicas isoladas. Não podemos reduzir o sofrimento psíquico à medicalização, assim como não podemos tratar o acolhimento institucional como mero depósito de corpos. A saúde mental e a proteção à infância exigem um pacto coletivo: é preciso garantir que a escuta seja um espaço de emancipação e que o direito à dignidade não dependa da classe social ou da cor da pele.

Assista a oficina na íntegra: 

OFICINA – “Além do processo: os bastidores da adoção e o papel dos profissionais da Rede de Proteção” 

OFICINA – “Além do processo: os bastidores da adoção e o papel dos profissionais da Rede de Proteção” 

No dia 17 de junho de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a décima terceira oficina do Projeto Formação em Redes, iniciativa apoiada pelo FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Instituto Pólis. Com o tema “Além do processo: os bastidores da adoção e o papel dos profissionais da Rede de Proteção”, a atividade foi direcionada aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, na Rede Socioassistencial e no Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.

A oficina contou com a participação de Larissa Alves, filha adotiva, jornalista, bacharela em Direito e dramaturga. Cofundadora da Associação Brasileira de Pessoas Adotadas e do projeto Olhar Adotivo, tendo também idealizado o Adotivas Podcast.

Durante o encontro, Larissa compartilhou sua trajetória e suas vivências como filha adotiva, destacando a importância de compreender a adoção a partir da perspectiva das pessoas adotadas, e não apenas das expectativas de quem adota. Entre os temas abordados, ressaltou o direito à verdade e às origens como elementos essenciais para a construção saudável da identidade e da saúde psíquica, bem como a necessidade de preservar a história dos grupos de irmãos durante o processo de adoção. Nesse contexto, enfatizou que instrumentos como as "Cartas da Vida" e metodologias sistemáticas de trabalho com histórias de vida podem ser fundamentais para preservar a memória, a identidade e o sentimento de pertencimento de crianças e adolescentes.

Destacou a importância do acesso aos históricos médicos, aos mapeamentos genéticos e às informações biográficas, além da urgência de desenvolver estratégias institucionais que garantam registros qualificados das trajetórias de vida das crianças e dos adolescentes. Outro aspecto abordado foi a possibilidade de desarquivamento dos processos de adoção, diante da recorrente ausência de informações que permitam às pessoas adotadas conhecer sua própria história. Larissa também chamou atenção para a escassez de dados consolidados sobre a adoção legal no Brasil e para a necessidade de refletir sobre os números de crianças e adolescentes considerados "disponíveis para adoção", compreendendo os contextos que antecedem essa condição.

Também foram debatidos os impactos da transição de classe social e das experiências de racismo na construção da identidade, reconhecendo que marcadores sociais, como raça, classe e gênero, atravessam de maneira significativa a experiência das pessoas adotadas. As reflexões reforçaram a importância de promover processos de adoção comprometidos com a garantia de direitos, com a preservação das histórias de vida e com a escuta qualificada das crianças, dos adolescentes e das pessoas adultas que vivenciaram a adoção.

Confira o vídeo com a oficina completa:

O aniversário do ECA e o direito de crescer com afeto: desconstruindo os ditados populares que machucam a infância e adolescência.

O aniversário do ECA e o direito de crescer com afeto: desconstruindo os ditados populares que machucam a infância e adolescência.

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) comemora mais um ano de existência. Desde sua criação, esse documento fundamental mudou de maneira significativa a forma como o Brasil enxerga a infância e a juventude, transformando meninos e meninas em sujeitos de direitos que merecem proteção integral. No entanto, mesmo com os avanços legais, ainda enfrentamos barreiras culturais profundas.

Celebrar o ECA hoje é entender que meninos e meninas têm, acima de tudo, o direito de crescer com afeto, deixando no passado as narrativas  que silenciam e machucam. Neste sentido, convidamos você a refletir: Sobreviver a uma criação rígida significa que ela era a melhor opção?

Para muitos adultos, olhar para trás e lembrar da própria infância evoca memórias profundas, essas lembranças vêm acompanhadas de frases que, por gerações, justificaram o sofrimento como método educativo.

Bater não ensina o que é certo; ensina a ter medo de ser pego. Segundo o relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), a violência física ou psicológica gera respostas de estresse no cérebro em formação, podendo resultar em adultos mais ansiosos, inseguros ou que reproduzem a agressividade em suas relações cotidianas. Quando justificamos a palmada do passado, muitas vezes estamos apenas tentando normalizar uma dor que ainda não foi curada.

Apesar de ser considerado uma das legislações mais avançadas do mundo, o ECA ainda enfrenta uma barreira invisível, mas muito resistente: a nossa cultura. No ambiente doméstico, os velhos hábitos e ditados populares continuam justificando a dor e o autoritarismo como ferramentas de criação.

A violência contra a criança e adolescente raramente se apresenta de forma escancarada logo de início; ela costuma vir disfarçada de "sabedoria popular". Ao longo de gerações, fomos ensinados a normalizar certos comportamentos por meio de frases que repetimos sem pensar. 

Segue narrativas que herdamos para que possamos refletir a importância de entender por que elas já não cabem mais no presente.

- “Eu apanhei e não morri, virei um adulto de bem”: Sobreviver a um método doloroso não o torna correto. O objetivo da criação não é apenas a sobrevivência física, mas garantir a saúde emocional e a autoestima. Justificar a palmada do passado costuma ser apenas uma forma de tentar anestesiar uma dor que nunca foi tratada.

- “Engole o choro!”: Uma das ordens mais ouvidas na infância tradicional. Ela ensina a criança a reprimir suas emoções em vez de aprender a lidar com elas. O choro é comunicação e alívio. Quando obrigamos o silenciamento, geramos adultos que não sabem expressar vulnerabilidades ou frustrações.

- “Criança não tem querer” ou “Criança só fala quando a galinha cacareja”: Essas frases anulam a existência da criança como indivíduo, indo na contramão de tudo o que o Estatuto da Criança e do Adolescente defende. Aprender a ter voz dentro no ambiente familiar é o que ensina crianças e adolescentes a impor limites e se proteger de abusos no mundo lá fora.

- “No meu tempo não tinha essa frescura de depressão e ansiedade”: Essa narrativa invalida a saúde mental e tenta vender a ideia de que as gerações passadas eram mais fortes. A verdade é que o sofrimento emocional sempre existiu, mas era silenciado pelo tabu, pela falta de diagnóstico e pelo medo.

O ECA, reforçado anos mais tarde pela Lei Menino Bernardo (conhecida como Lei da Palmada), não nasceu para tirar a autoridade dos pais, mas para propor uma autoridade baseada no respeito mútuo. 

Educar dá trabalho e exige paciência. É aqui que entra a real importância do cuidado, vai muito além de garantir comida na mesa e escola. O cuidado essencial envolve:

Escuta ativa: Ouvir o que a criança tem a dizer, validando seus sentimentos (mesmo nas birras).

Limites com afeto: Estabelecer regras claras e firmes, explicando as consequências reais das ações, sem recorrer a agressões.

Exemplo: Entender que os filhos aprendem muito mais observando como os adultos reagem às frustrações do que pelo que eles dizem.

Proteger a infância é um dever de todos nós — família, comunidade e Estado. Quebrar o ciclo da violência geracional e abandonar velhos ditados dolorosos é o primeiro passo para construir uma sociedade melhor.

Não precisamos repetir os erros do passado para criar pessoas de bem. Podemos, sim, criar indivíduos conscientes, resilientes e éticos por meio do diálogo, do acolhimento e do cuidado constante. 

Aline Oliveira

Referências

BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ano 128, n. 135, p. 13563-13577, 16 jul. 1990. Disponível em: planalto.gov.br. Acesso em: 24 jun. 2026.

BRASIL. Lei nº 13.010, de 26 de junho de 2014. Altera a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), para estabelecer o direito da criança e do adolescente de serem educados e cuidados sem o uso de castigos físicos ou de tratamento cruel ou degradante. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, n. 121, p. 1, 27 jun. 2014. Disponível em: planalto.gov.br. Acesso em:  jun. 2026.

MCLAUGHLIN, Katie A. et al. Castigo corporal e resposta neural elevada à ameaça em crianças. Child Development, [S. l.], v. 92, n. 3, p. 1120-1132, abr. 2021. Tradução oficial. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/B09424  Acesso em: 01 jul. 2026.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Castigos corporais em crianças: o impacto na saúde pública. Genebra: Organização Mundial da Saúde, 2025. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/B09424. Acesso em:  01 jul. 2026.

OFICINA – “Diagnóstico ou rotulação? Reflexões e práticas sobre a medicalização nas infâncias e adolescências"

OFICINA – “Diagnóstico ou rotulação? Reflexões e práticas sobre a medicalização nas infâncias e adolescências"

No dia 20 de maio de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a décima segunda oficina do Projeto Formação em Redes, iniciativa apoiada pelo FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Instituto Pólis. Com o tema “Diagnóstico ou rotulação? Reflexões e práticas sobre a medicalização nas infâncias e adolescências" e foi direcionado aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, na Rede Socioassistencial e no Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.

A oficina contou com a participação de Flávia Cézari, Psicóloga e Psicanalista, graduada e mestranda em Psicologia Clínica no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, membro associado do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e pesquisadora das infâncias e adolescências vulnerabilizadas. 

Flávia iniciou o encontro com reflexões sobre a importância de observar as situações de desproteção das infâncias e juventudes, destacando os desafios atuais das políticas públicas de saúde em atender números cada vez mais expressivos relacionados aos diagnósticos de transtornos e de dificuldades comportamentais entre crianças e adolescentes.

A convidada destaca que é necessário considerar alguns eixos antes de traçar algum diagnóstico e que perguntas como: “A pessoa possui um trabalho?”, “Como estão suas relações com a família?”, “Em que contexto ela está vivendo?”, podem ser instrumentos metodológicos antes de rotular comportamentos ou experiências por meio de um diagnóstico. Muitas vezes, comportamentos relacionados ao sofrimento social são compreendidos apenas como sintomas individuais.

A oficina apresentou os conceitos de medicalização e a diferença entre transtorno e sofrimento mental, abordou sobre os desafios atuais no uso da medicalização como uma alternativa em contornar problemas de outras ordens, a busca de soluções rápidas para os problemas através do uso expressivo de medicamentos.

Dessa forma, Flávia nos convida a refletir sobre quais práticas pedagógicas e de cuidado podem tornar-se mais acolhedoras e menos normatizadoras e da importância de que crianças e adolescentes possam ser vistos a partir de suas potencialidades, e não de diagnósticos. 

Confira o vídeo com a oficina completa: 

 CARTA ABERTA de um Educador do Grupo nÓs *Vínculo, comunidade e Projeto de Vida*

CARTA ABERTA de um Educador do Grupo nÓs *Vínculo, comunidade e Projeto de Vida*

Escutar, às vezes, parece pouco. Porém, as ciências têm dito: a escuta cura. Cura tem sido muitas vezes confundida com medicalização, com o cada vez maior abuso de substâncias para acabar com um sintoma, porém, no olhar das diversas e unificadas visões de povos tradicionais, inclusive a partir da matriz africana: curar é encontrar o equilíbrio possível. É aí que a escuta cura, que a fala cura e digo não somente da fala oralizada mas da fala que se expressa no silêncio, no olhar, no desenho amassado dentro da mochila, no poema que esconde na última folha do caderno, nas rimas que guarda no bloco de notas do celular, na lágrima contida, no riso sincero, no “séloko tio.”

É a partir desse encontro — que tem como instrumentos básicos a fala e a escuta — que se constrói o que, no grupo nÓs, chamamos de acompanhamento individual: um momento de encontro entre o jovem e seu “técnico de referência”. A cidade e seus espaços mediam esse encontro e a escolha desse espaço também dá o tom da conversa: bibliotecas, parques, espaços institucionais, saraus, batalhas de rima, a calçada da rua, a videochamada, a lanchonete, centro esportivo, o banco da praça. Muitos são os espaços possíveis para esse encontro em que o adolescente pode falar sobre o que deseja falar e escutar o técnico quando lhe faz sentido naquele momento. O que chamamos de “eixos de trabalho” formam encruzilhadas na mente deste técnico (uma pessoa educadora com sua caixa de ferramentas) na busca por dar um retorno, um conselho, um sentido, uma orientação para todo aquele universo que o jovem traz consigo. Haverá dias em que podemos, enfim, cumprir nosso papel institucional de orientá-los sobre educação financeira, trabalho, educação, cidadania, cultura, identidade, moradia e tudo isso que compõem seu projeto de vida. Mas também haverá dias em que teremos que mobilizar recursos, apresentar limites e intervir na realidade para tão somente garantir a continuidade daquela vida ameaçada pelo projeto de morte estruturado em nosso país. E haverá ainda dias - e esses são os mais importantes - em que vamos só observar o universo, contar as estrelas, lembrar dos sonhos e contar de novo sobre as coisas bonitas. É nessa ginga de respeito que às vezes somos convidados a ver o desenho amassado na mochila ou a ler o desabafo escrito na última folha do caderno. Às vezes somos nós quem convidamos a olhar e lembrar que há algo escrito na última folha do caderno e que ali, onde a pessoa deságua suas fraquezas, que se esconde sua força e caminho. Temos falado sobre o direito de sonhar mas às vezes precisamos nos lembrar: de que são feitos os sonhos? Senão de desejos internos, tantas vezes soterrados pela violência mas que encontram no outro um sentido e apoio. Aqui chamamos de vínculo: esse fio que une uma pessoa a alguém ou a um grupo. Fio construído por aproximações e distâncias, atravessado pelo território, o gênero, a raça e que se estrutura a partir da escuta e do respeito, com a mediação de todo repertório teórico e prático do educador mas que, como diz o verso: “ao escutar uma alma humana seja apenas outra alma humana.”

A escuta - que pode até envolver o nada simples exercício de permanecer atento e em silêncio enquanto o outro fala - é esse estado de presença. Não como um burocrata que está sentado num guichê, aguardando a solução do seu problema e pronto pra te ofertar um novo produto mas o estado de um ser humano que, mesmo atravessado por suas questões, ansiedades e precarizações, naquele momento combinado escolhe ouvir alguém e buscar as perguntas certas para ajudá-lo a enxergar o que de melhor carrega em si e quais as melhores possibilidades para se tentar viver o bem-viver mesmo neste sistema, respeitando e provocando-o a pensar sobre sua visão de si e do mundo mas a partir da história, do entorno e da ancestralidade do jovem e não só a partir do viés dos jornais sensacionalistas que enxergam em nossa juventude não uma vida complexa mas um problema social ou um “caso” e se essas vidas são tratadas apenas como problemas sociais então não têm o direito de ser humanos, de ser complexos, “aquele louco que não pode errar”. No fim estamos também nós, adultos, entre erros e acertos, buscando caminhos pro mundo. Não nos cabe esperar de adolescentes todas as soluções para problemas que eles não criaram. Mas nos cabe contar de como está o mundo que deixamos para eles: 

“essas são nossas regras, algumas são importantes, várias são injustas, todas são questionáveis mas são essas regras que nós, humanos, conseguimos construir até aqui, esse é o funcionamento do mundo que recebemos, é o mundo que vivemos nossa adolescência, é o mundo que temos tentado mudar e é o mundo em que vocês já vivem. Vocês podem jogar o jogo com as regras de vocês mas serão julgados pelas regras do mundo, talvez até cedo demais em alguns casos mas, por mais que doa, esse é o mundo. Vocês não estão sós, estamos todos juntos habitando esse mesmo planeta, dividido de maneira injusta mas ainda o mesmo planeta. Nos sentimos sós o tempo todo mas não estamos. Vocês podem observar as regras do mundo, criticar as regras injustas mas jogar o jogo de um jeito que sua vida seja preservada, saudável e mais feliz. Não vai dar pra acertar sempre, mas tenta acertar com você mesmo a maior parte do tempo. Não é só sobre o conselho do tio do projeto ou da técnica do serviço, entende? Não é sobre o relatório da juíza. Lembra? Isso tudo é o jeito que os adultos encontraram para lidar com os problemas que os adultos criam. Mas o seu compromisso, o seu Projeto de Vida, é sobre você, é sobre sua vida, é sobre a vida dos seus. Que ferramentas você tem para enfrentar essa selva de pedra? Sabia que, se você fizer uma grana, preservar sua saúde e sua liberdade, talvez dê pra pegar uma praia no fim de semana? Se você se manter vivo agora, você terá a oportunidade de conhecer pessoas incríveis. Se você se ouvir agora você vai se afastar de pessoas que querem você se afundando. E eu sei, eu sei que às vezes você quer mesmo se afundar. Quando a gente sente que já não tem nada mesmo, que nossa vida nem tem valor, parece que tanto faz né? Naquelas noites, e você sabe de que noites eu to falando, naquelas noites em que o mundo desaba nas suas costas e você não tem ninguém pra conversar… Quem te levanta da cama quando o sol nasce? Sou mais você nessa guerra.”

Dizer o que cabe naquele momento. Não precisa deixar o relatório, o livro, o plano individual de atendimento na estante, dá pra trazer ele pra roda e ler junto. O projeto de vida não é só mais um protocolo jurídico. O projeto de vida é um mapa: amassado, rasurado, rabiscado, dobrado, molhado mas que carregamos sempre no peito. O projeto de vida é um diploma que a gente levanta e vê a nossa comunidade sorrir celebrando junto com a gente. O projeto de vida se sustenta no fino fio que puxa o jovem de volta todo sábado pro grupo mesmo depois de passar a sexta curtindo um baile ou jogando no celular, mesmo depois de fugir de tudo: ele volta. Não só porque tem o lanche daora, porque tem a bolsa-auxílio, porque tem o passeio legal. Justamente porquê escolher o lanche, a bolsa e o passeio ainda é garantir um compromisso consigo mesmo e com sua vida, é um acesso a direitos básicos. Mas o fio fino, que sustenta o projeto de vida e faz o jovem voltar pro grupo é o vínculo: o vínculo com os profissionais de educação, fortalecimento e cuidado e o vínculo com essa comunidade, com esses semelhantes com diversas histórias mas com uma experiência, profunda, em comum: não só o acolhimento mas os rompimentos que levam a ele. “A criança que não é abraçada pela aldeia a queimará para sentir seu calor”. É desse encontro com outros jovens que também queimariam o mundo se pudessem (mas que como não podem as vezes queimam a si mesmos) que se reconstrói e se nutre um vínculo consigo mesmo e com o mundo, apesar e muito além dos abandonos. Confluência é o nome desse encontro. É nas brechas do sistema que vamos nos confluenciando e que nossas comunidades vão sendo recriadas e é o elo de uns com os outros, com um grupo, com um chão, um território, uma comunidade o que sustenta o nosso amor próprio, o nosso compromisso e o tronco dessa árvore que aqui escolhemos chamar de “Projeto de Vida.” 

“Quando a gente confluência, a gente não deixa de ser a gente, a gente passa a ser a gente e outra gente - a gente rende.

A confluência é uma força que rende, que aumenta, que amplia.” 

(Mestre Nego Bispo)

 Igor Gomes Xavier

REFERÊNCIAS UTILIZADAS:
Mestre Nego Bispo: https://revista.historiaoral.org.br/index.php/rho/article/download/1588/106106106452

nÓs no Mundo: https://nosnomundo.org.br/
PONTE - O que é necropolítica: https://ponte.org/o-que-e-necropolitica-e-como-se-aplica-a-seguranca-publica-no-brasil/
Documentário: O direito de sonhar: https://www.youtube.com/watch?v=3rnLBCgmDrU

Racionais MC’s - Sou + você: https://www.youtube.com/watch?v=TB5gzXCAx7o

Racionais MC’s - Nego Drama: https://www.youtube.com/watch?v=o50J2xg8-sU

Precarização do trabalho e saúde mental dos (as) assistentes sociais: https://www.scielo.br/j/rk/a/QdGRxJyzXf8kPyKJJrtZF7L/?lang=pt

Bem-viver e reparação: a luta das mulheres negras por saúde e equidade: https://abrasco.org.br/bem-viver-e-reparacao-a-luta-das-mulheres-negras-por-saude-e-equidade/

OFICINA – "Como construir regras e limites no serviço de acolhimento sem negociar o cuidado?"

OFICINA – "Como construir regras e limites no serviço de acolhimento sem negociar o cuidado?"

No dia 15 de abril de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a décima oficina do Projeto Formação em Redes, iniciativa apoiada pelo FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Instituto Pólis. Com o tema “Como construir regras e limites no serviço de acolhimento sem negociar o cuidado?”, o encontro reuniu profissionais dos Serviços de Acolhimento, Rede Socioassistencial e  Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo para uma reflexão profunda sobre práticas de cuidado, convivência e proteção.

A oficina foi conduzida por Camila Gibin Melo, educadora popular, assistente social, doutora em Serviço Social e professora da FAPSS/SCS. Atuante nas lutas territoriais e abolicionistas penais, Camila coordena o Núcleo Samaúma, onde desenvolve formação para equipes do SUAS e do SUS. É também autora do livro Acumulação do Capital, Infância e Adolescência: um estudo sobre ser criança no capitalismo.

Logo no início, Camila convidou os participantes a refletir sobre sua própria relação com regras e limites e como essas questões atravessam o cotidiano do trabalho socioassistencial. A partir dessa provocação, apresentou uma análise histórica e teórica dos mecanismos de punição e controle social, destacando como determinadas lógicas punitivistas foram sendo construídas e naturalizadas ao longo do tempo, especialmente no contexto da sociedade capitalista, em que a disciplina e a adequação às normas ocupam um papel central.

Camila apresentou contribuições do antiproibicionismo e da educação popular - perspectivas que problematizam práticas de controle e tutela e defendem a construção de relações baseadas no diálogo, na participação crítica e no reconhecimento das pessoas como protagonistas de suas próprias trajetórias. A partir dessas referências, os participantes foram convidados a pensar sobre os desafios de construir regras e limites nos serviços de acolhimento sem abrir mão do cuidado, da garantia de direitos e do respeito às singularidades de cada sujeito.

Mais do que oferecer respostas prontas, o encontro abriu espaço para reflexões fundamentais sobre as práticas institucionais e sobre a possibilidade de construir intervenções cada vez mais comprometidas com a escuta, a autonomia e a proteção integral de crianças, adolescentes e suas famílias.

Confira o vídeo com a oficina completa: 

Acolhimento Familiar: a-colher para florescer

Acolhimento Familiar: a-colher para florescer

O dia 31 de maio foi a data escolhida para celebrar o Dia Mundial do Acolhimento Familiar.
Um marco que nos convida a direcionar o olhar para a importância de construir uma nova lógica de cuidado para crianças e adolescentes.

O Serviço de Acolhimento Familiar surge como uma alternativa ao acolhimento institucional e tem como objetivo ampliar o cuidado individualizado às crianças e aos adolescentes, reconhecendo suas histórias de vida e respeitando seus desafios e potencialidades singulares. Previsto na política pública de proteção à infância e à adolescência, esse serviço busca oferecer um ambiente de cuidado mais próximo e acolhedor, fortalecendo vínculos afetivos e promovendo o desenvolvimento integral de cada criança e adolescente.

A oferta de um olhar exclusivo para o momento de maior vulnerabilidade da vida de uma criança ou adolescente não impede que existam marcas de suas vivências, mas pode contribuir para a construção de experiências mais seguras e acolhedoras, com potencial reparador diante das situações de fragilidade vividas. Além disso, favorece a valorização das experiências afetivas e dos vínculos construídos ao longo de sua trajetória, especialmente junto à família de origem.

Cada criança e adolescente afastado/a de seu lar e de sua família constitui um universo particular, com uma trajetória única, marcada por vivências, vínculos e necessidades singulares.

Cada um carrega uma semente.

Sementes carregam dentro de si um “vir a ser”: uma genética, uma história e uma potência para o crescimento. Assim como o Serviço de Acolhimento Familiar propõe um cuidado mais individualizado e atento, é preciso reconhecer e acolher a singularidade presente em cada semente.

Sementes precisam de semeadura, e é nesse cenário que se tornam fundamentais as Famílias Acolhedoras: as verdadeiras semeadoras.

Quando uma semente encontra um semeador, inicia-se um processo de florescimento. Faz-se, então, o acolhimento: a ação de A-COLHER. No contexto do acolhimento familiar, isso significa oferecer proteção, escuta, convivência e segurança emocional durante um período de grande vulnerabilidade.

No tempo certo, essa semente germinará, crescerá e florescerá. Segura, essa flor saltará aos olhos distraídos, revelando a potência do cuidado, da boa semeadura e da colheita.

É preciso minúcia, entrega, afeto e apreço para cuidar de cada semente conforme aquilo de que ela necessita.

Não se semeia girassol como se semeia amor-perfeito. Cada semente deve receber o cuidado específico de que precisa. Assim também acontece com cada criança e adolescente: cada um possui necessidades, tempos e formas únicas de se desenvolver.

Daquele pequeno grão-criança-adolescente, não se sabe ao certo o que nascerá. Mas o cuidado, a rega e a dedicação no fazer crescer potencializam aquilo que existe dentro dele/a. O acolhimento não apaga as marcas das experiências vividas, mas pode criar condições para que novas experiências de cuidado, confiança e pertencimento contribuam para seu desenvolvimento.

E, para cada nova semente-criança-adolescente, permanece a confiança de que, quando ofertado o cuidado adequado, uma linda flor virá a florescer.

Beatriz Pissato

OFICINA - “Cultura e arte na periferia - vozes das crianças e adolescentes”

OFICINA - “Cultura e arte na periferia - vozes das crianças e adolescentes”

No dia 24 de abril de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a sexta oficina do Projeto Redes de Conhecimento, com o apoio do FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Espaço Comunidade Cultural Quilombaque, região de Perus. O encontro teve como tema “Cultura e arte na periferia - vozes das crianças e adolescentes” e foi direcionado aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, Rede Socioassistencial e Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo. As especialistas convidadas para essa oficina foram as integrantes da Cia Muvuca: Samanta Biotti – atua desde 2008 desenvolvendo projetos de literatura e artes em escolas, Fábricas de Cultura e na Fundação CASA. É pedagoga, cofundadora do Sarau da Brasa, Cia Muvuca e do Centro de Memória – Nascentes da Brasa. Desenvolve formações em São Paulo e Santo André sobre a primeira infância, o brincar, ética e o papel do educador social, além de palestras sobre assédio institucional e as Leis 10.639/03 e 11.645/08. Idealizadora do projeto “Letra é Treta” (letramento socioeducativo), é também escritora e poeta, autora de “O Boldo que queria ser melancia”. Com textos publicados na Argentina e no Chile, levou sua voz à Feira do Livro de Buenos Aires e ao Encontro de Poesia Hablada em Havana, Cuba; e Sthefânia Carvalho: Psicóloga e especialista em psicanálise com crianças. Batuqueira e brincante. Mãe. Trabalhadora do SUS com enfoque em atenção psicossocial e promoção de saúde coletiva. Integrante do grupo de trabalho e pesquisa SUSTENTAR - Infâncias, psicanálise e saúde pública. No campo da cultura, integra diversos coletivos que articulam arte, infâncias, educação, território, e garantia de direitos: Cia MUVUCA, Revoada Cantante, Sarau da Brasa e Cordão Carnavalesco do Samba do Congo.

O encontro foi permeado por vivências envolvendo os sentidos dos participantes, o canto e os tambores, além das falas das especialistas, que foram bastante mobilizadoras para todo o grupo. Sthefânia iniciou trazendo questões importantes sobre a escuta das crianças e adolescentes no cotidiano dos serviços de acolhimento e as possibilidades de expressão através da arte e cultura. Contou sobre sua experiência na realização de saraus como um recurso para propiciar essa expressão de histórias e experiências. Abordou também os desafios de sustentar a escuta no cotidiano - por conta das demandas diversas dos trabalhadores - ressaltando que ela não é feita somente por psicólogas, e sim por toda a equipe. As falas das crianças e adolescentes muitas vezes vêm através de seus comportamentos desafiadores e é importante a equipe poder fazer essa leitura para acolher e ajudar a transformar o que sentem em palavras ou outras formas expressivas.

Samanta relatou suas experiências em projetos culturais com crianças e adolescentes em uma fala permeada por seus poemas e intervenções. A partir de sua história, traz seus conceitos de arte e cultura - como e porque fazemos arte. Segundo ela, a arte pode servir para um universo de coisas - ampliar perspectivas e talvez fazer com que aceitemos nosso sofrimento de forma mais branda, acolher os processos com tempo de contemplação. A cultura se relaciona às formas como age, pensa, dialoga. Ela pode ser - e é - constantemente modificada.

A partir das apresentações, os trabalhadores foram levados a refletir sobre as possibilidades de construção de espaços de arte, cultura e expressão no cotidiano. Foi uma manhã de inspiração e reflexão. Assista a oficina na íntegra!

Do assistencialismo ao compromisso ético: a trajetória do Serviço Social

Do assistencialismo ao compromisso ético: a trajetória do Serviço Social

No dia 15 de maio, o Serviço Social celebra o dia desta profissão que tem sua origem permeada pelo conservadorismo, mas que floresceu, nas trincheiras da resistência da classe trabalhadora, como prática comprometida com a transformação social. Em respostas às demandas apresentadas por uma sociedade desigual, sua trajetória foi sendo reestruturada até consolidar-se como uma atuação crítica, consciente, ética e política que neste ano completa 90 anos de atuação.

Assim como acreditamos que as histórias de vida são importantes na construção social dos sujeitos, também compreendemos que  a trajetória dessa profissão é parte essencial de sua identidade. Com raízes históricas profundamente ligadas à caridade, à filantropia e ao assistencialismo, o Serviço Social teve sua prática marcada, durante muitas décadas, por essas características, que precisaram ser revisitadas, questionadas e transformadas ao longo do tempo. Segundo Iamamoto (2007),

 O Serviço Social nasce inserido na divisão social e técnica do trabalho como resposta às expressões da questão social produzidas pelo capitalismo. Entretanto, sua origem vinculada às ações filantrópicas contribuiu para a construção de uma visão limitada sobre a profissão, frequentemente associada à prática do “ajudar” e não ao exercício de uma atividade técnico-científica.

Na reestruturação do Serviço Social, a profissão rompe com o caráter caritativo e passa a atuar na defesa intransigente dos direitos, partindo do entendimento de que a Assistência Social deve constituir-se como política pública, para que os direitos possam ser legitimados, garantidos e efetivados. E é na identificação das contradições da sociedade capitalista e nas expressões da questão social, que o Serviço Social, por meio de seus/suas profissionais, passa, segundo Piana (2009), a pensar as políticas sociais como respostas a situações indignas de vida da população pobre. Nesse movimento, torna-se possível reconhecer a mediação que as políticas sociais representam no processo de trabalho profissional diante das demandas apresentadas pela população usuária. Enquanto a lógica caritativa individualiza a pobreza, a política pública reconhece que as vulnerabilidades sociais são produzidas por relações econômicas, sociais e políticas. Por isso, o acesso à saúde, educação, assistência social, moradia e alimentação deve ocorrer como direito universal e não como concessão.  

É nesse contexto que nos esbarramos com a sedimentação da profissão, especialmente na assistência social, que busca minimizar os impactos da desigualdade social. Os indivíduos e cidadãos usuários, ao serem acompanhados, muitas vezes necessitam de encaminhamentos para equipamentos públicos e serviços especializados, pois o impacto positivo na vida desses cidadãos nem sempre se dá de forma imediata. Muitas vezes, o processo de transformação e emancipação se dá na ruptura com a transversalidade da pobreza, construindo novas trajetórias e abrindo caminhos para a cidadania, ainda que de forma lenta e contínua. 

É também nesse processo, muitas vezes longo e desafiador, que precisamos estar atentos para não reproduzir, em nossa atuação, os estereótipos presentes na  origem da profissão. Em determinados momentos, diante das inseguranças produzidas por esta sociedade capitalista e desigual e na insuficiência de políticas públicas ao cidadão-usuário, o caminho da tutela se torna atraente e quase imperceptível. Contudo, o compromisso ético do Serviço Social é possibilitar que cada sujeito de direitos reconheça a si mesmo como autor da  sua própria história, capaz de  construir seus próprios caminhos e destinos resistindo a toda forma de opressão e paralisação. 

Trabalhar na a assistência social é atuar não apenas sobre o passado e o presente, mas também o futuro. É acreditar na possibilidade de  romper ciclos transgeracionais de violação de direitos e compreender que, embora os resultados nem sempre sejam imediatamente visíveis, eles podem e irão refletir nas próximas trajetórias e gerações.

Gabriela Silvério e Isabelle Pereira

REFERÊNCIAS UTILIZADAS:

IAMAMOTO, Marilda Villela. O Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional. 13. ed. São Paulo: Cortez, 2007.

PIANA, MC. A construção do perfil do assistente social no cenário educacional [online]. São Paulo: Editora UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009. 233 p. ISBN 978-85-7983-038-9. Available from SciELO Books <http://books.scielo.org >. 

https://cfess.org.br/diaassistentesocial2026

OFICINA - “Adoção - boas práticas e desafios”

OFICINA - “Adoção - boas práticas e desafios”

No dia 20 de março de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a quinta oficina do Projeto Redes de Conhecimento, com o apoio do FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Espaço Comunidade Cultural Quilombaque, região de Perus. O encontro teve como tema “Adoção - boas práticas e desafios” e foi direcionado aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, Rede Socioassistencial e Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.

As especialistas convidadas para essa oficina foram: Ana Clara Fusaro Rodrigues - Psicóloga (UFTM), Mestre em Psicologia Clínica (IP/USP) e Especialista em Psicoterapia Psicanalítica (CEPSI Ryad Simon). Atualmente é Vice-presidente da Associação de Psicoterapia Psicanalítica de São Paulo (APP). Desde 2022 atua pelo IFH no Projeto EI-3 - Impactos de Intervenções sobre a Institucionalização Precoce - dedicando-se ao fortalecimento de vínculos entre bebês acolhidos e seus cuidadores. De 2016 a 2021 esteve na coordenação de grupos preparatórios com pretendentes à adoção e rodas de conversa com pais adotivos nas universidades UFTM e USP. Segue trabalhando com a temática da adoção em consultório particular, através do projeto Entrelaços, que inclui atendimento clínico, grupos de estudo e supervisão; e Larissa Alves: jornalista, bacharela em direito e dramaturga. Filha adotiva, é co-fundadora da Associação Brasileira de Pessoas Adotadas (ADOTIVA) e do Adotivas podcast, além de idealizadora do projeto @olharadotivo nas redes sociais.

Ana Clara inicia a oficina trazendo dados do CNJ sobre os pretendentes à adoção e as escolhas que colocam sobre o perfil da criança que vão receber. Observa que isso leva muitas vezes a idealizar o filho que vai chegar. É importante avaliar o quanto de fato a família está preparada para receber a criança real, aceitando que ela não nasceu naquele momento e tem uma história pregressa particular. O processo de aproximação deve ser gradual, respeitando o tempo das crianças. O papel do educador e família acolhedora nesse processo é fundamental, pois são quem mais tem informações sobre as crianças no cotidiano. Com relação ao trabalho com as crianças e adolescentes, é importante validar e acolher todas as suas expressões, seja por falas ou comportamentos. A adoção é, para a criança ou adolescente, um processo de transição bastante delicado e não pode ser feito de forma abrupta.

Larissa inicia contando sua trajetória como pessoa adotada, a importância da história de vida e a falta de informações sobre essa experiência particular. A partir da conversa com outras pessoas adotadas, passou a se entender melhor e entender as informações importantes a serem elaboradas desse processo. Criaram nesse processo a Associação Brasileira de Pessoas Adotadas. Existem lacunas como por exemplo a falta de espelhamento genético e informações sobre a ancestralidade. Larissa compara a adoção a um processo de migração e os adotivos aos refugiados. Fala também sobre os direitos às origens e ao desejo comum dos adotivos de terem esse conhecimento de onde vieram - apesar do medo de decepcionar a família adotiva. Finaliza trazendo a ideia de que a adoção existe como reflexo de um problema social.

Assista a oficina na íntegra!

OFICINA – "O Trabalho com história de vida”

OFICINA – "O Trabalho com história de vida”

No dia 27 de fevereiro  de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a décima oficina do Projeto Formação em Redes, com o apoio do FUMCAD, na Embaixada Preta - Casa Preta Hub. O encontro teve como tema “O trabalho com histórias de vida” Serviços de Família Acolhedora, Famílias Acolhedoras vinculadas aos serviços e a Rede Socioassistencial e Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.

A oficina contou com a participação de Renata Pante, formada em Arquitetura e Urbanismo pela USP e mestre em Museologia pela mesma instituição. Possui experiência em gestão, organização de acervos e projetos de memória, atuando desde 2018 no Museu da Pessoa, onde coordena o Centro de Educação, Memória e Pesquisa.

Renata  apresentou o trabalho desenvolvido pelo Museu da Pessoa, um museu virtual e colaborativo criado em 1991, que tem como objetivo registrar, preservar e divulgar histórias de vida de pessoas comuns, transformando essas histórias em patrimônio cultural e memória coletiva. Diferente dos museus tradicionais, seu acervo não é composto por objetos, mas por narrativas de vida em formato de vídeos, áudios, textos e fotografias. O trabalho do museu envolve entrevistas e projetos de memória em comunidades, escolas e organizações sociais, valorizando a identidade, a cultura e a história das pessoas e dos territórios. Sua metodologia, chamada Tecnologia Social da Memória, permite que grupos e comunidades registrem suas próprias histórias, fortalecendo vínculos, identidade e pertencimento social.

A oficina possibilitou reflexões importantes, considerando a realidade dos serviços de acolhimento. As crianças e adolescentes acolhidos vivenciam rupturas, perdas e mudanças que podem fragmentar sua identidade e sua memória. O trabalho com a história de vida, por meio de atividades como livro da vida, linha do tempo, registro de memórias e escuta das narrativas, contribui para a construção da identidade, o fortalecimento da autoestima e a elaboração das experiências vividas no acolhimento.

Por fim, os participantes puderam fazer perguntas sobre o processo de escuta, organização das histórias de vida e demais dúvidas relacionadas ao tema. Assim como o Museu da Pessoa preserva memórias e histórias como patrimônio, o trabalho nos serviços de acolhimento ajuda a criança e o adolescente a organizar sua própria história, compreender sua trajetória e se reconhecer como sujeito de direitos e de história.

Confira o vídeo com a oficina completa:

OFICINA - “O trabalho com grupo de irmãos - tecendo redes para preservar o convívio familiar”

OFICINA - “O trabalho com grupo de irmãos - tecendo redes para preservar o convívio familiar”

No dia 27 de fevereiro de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a quarta oficina do Projeto Redes de Conhecimento, com o apoio do FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Espaço Cultural Moringa, região do Butantã. O encontro teve como tema “O trabalho com grupo de irmãos: tecendo redes para preservar o convívio familiar” e foi direcionado aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, Rede Socioassistencial e Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.

As especialistas convidadas para essa oficina foram Lara Naddeo: psicóloga (PUC-SP),  mestre em intervenção psicossocial (Univ. de Barcelona), com formação em psicanálise da perinatalidade e parentalidade pelo Instituto Gerar. Atuou por mais de 10 anos no universo do acolhimento de crianças e adolescentes através de seu trabalho no Instituto Fazendo História. É coautora do Guia de Acolhimento Familiar e, atualmente, trabalha em consultório, atua como doula de adoção e desenvolve consultorias e projetos na área do acolhimento e da primeira infância; e Fê Lopes: Psicóloga clínica, palestrante, comunicadora  com foco em gênero, raça parentalidades e infâncias. Atua na promoção de saúde emocional com perspectiva interseccional. É co-criadora da I Semana de Apoio à Amanda Negra no Brasil (2020), iniciativa pioneira.

Juntas, iniciaram com uma dinâmica para os participantes, pedindo que escrevessem o que desejavam e sonhavam para a relação de seus filhos ou o que achavam que seus pais desejavam para a relação deles com seus irmãos. Lara também trouxe uma matéria falando do reencontro por acaso de irmãos que foram adotados separadamente e não sabiam. A partir dessas informações, as especialistas discutiram o direito da convivência entre irmãos e o direito à história de vida e à participação das crianças e adolescentes em seus processos. Problematizaram também as definições sobre vínculo, que inclui também conflitos e momentos de maior proximidade ou separação. Fê traz aspectos sobre o que significa ser irmãos, compartilhar a mesma história.  É importante trabalharmos a idealização que se tem do modelo de família perfeita, que não se aplica na realidade - cada caso é um caso e deve ser trabalhado em suas especificidades.

No momento final da oficina, foram realizadas discussões de casos em grupos, pensando-se em estratégias para o trabalho nos serviços de acolhimento com grupos de irmãos e também nos casos em que as separações são inevitáveis.

Confira o vídeo com a oficina completa:

PLANO ANUAL INSTITUTO FAZENDO HISTÓRIA - SERVIÇOS SELECIONADOS

PLANO ANUAL INSTITUTO FAZENDO HISTÓRIA - SERVIÇOS SELECIONADOS

É com muita alegria que divulgamos os 14 serviços de acolhimento selecionados para participar do projeto Plano Anual Instituto Fazendo História, que contempla serviços da cidade de São Paulo.

Confira as unidades selecionadas:

  • SAICA Ariano Suassuna

  • SAICA Luz do Milênio I

  • SAICA Florescer

  • Lar Batista de Crianças - Aclimação

  • SAICA AVANTE

  • SAICA Casa do PAC II

  • SAICA CIDADE ADEMAR ABECAL II

  • MAESP - Mov.Assist.aos Encarcerados do Est.SP.

  • SAICA Lar Batista M´Boi Mirim

  • SAICA LIGIA DOMINGUES

  • SAICA Nossa Senhora da Penha de França

  • SAICA Abecal Capela do Socorro

  • SAICA Frida Kahlo

  • SAICA Casarão Brasil

Ao longo do projeto, o Instituto oferecerá formação, materiais e suporte técnico para que os serviços implementem, em seu cotidiano, a metodologia do Fazendo Minha História, além da construção de um espaço de leitura com livros infantis e juvenis e da disponibilização de álbuns para o registro das histórias de bebês, crianças e adolescentes.

Parabéns aos serviços selecionados. Estamos muito felizes em fazer história com vocês!

OFICINA – "A infância em risco em São Paulo: Leituras e estratégias para 2026”

OFICINA – "A infância em risco em São Paulo: Leituras e estratégias para 2026”

No dia 20 de janeiro de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a décima oficina do Projeto Formação em Redes, com o apoio do FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Instituto Pólis. O encontro teve como tema "A infância em risco em São Paulo: Leituras e estratégias para 2026” e foi direcionado aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, Rede Socioassistencial e Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.

A oficina contou com a participação de Camila Gibin Melo - educadora popular, assistente social e pós-graduanda em Arteterapia, atua por lutas territoriais e abolicionistas penais. É doutora em Serviço Social, professora da FAPSS/SCS e coordenadora do Núcleo Samaúma, onde realiza formações para equipes do SUAS e do SUS. Autora do livro "Acumulação do Capital, Infância e Adolescência: um estudo sobre ser criança no capitalismo", da editora Lutas Anticapital.

A convidada iniciou o encontro propondo uma análise de conjuntura sobre os indicadores sociais relacionados às crianças e adolescentes no Brasil e como podem impactar o Sistema de Garantia de Direitos voltadas à população infantil como um todo. Partindo do levantamento, destacou como estes dados podem revelar a permanência de diversas formas de violências e violações sendo cometidas contra crianças e adolescentes. Também revelam a continuidade de uma sociedade adultocêntrica - que compreende a organização social somente a partir dos adultos sem considerar as demandas das crianças e adolescentes - e as fragilidades na garantia das legislações protetivas que estão preconizadas no Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA. Além disso, pontuou sobre a importância em construir espaços coletivos de lutas e de reconhecer as crianças e adolescentes como sujeitos políticos e de direitos, que também podem produzir resistência.

Camila propôs uma atividade coletiva para pensar análises possíveis a partir dos dados sobre o cenário atual relacionado às crianças e adolescentes e estratégias viáveis para a superação das violências. Destacou, contudo, que crianças e adolescentes também produzem resistência e apontou como tarefa política fundamental ampliar o diálogo com as crianças sobre questões  raciais, favorecendo processos de identificação e consciência crítica.


Confira o vídeo com a oficina completa:

OFICINA - “Saúde mental: a escuta das crianças e adolescentes”

OFICINA - “Saúde mental: a escuta das crianças e adolescentes”

No dia 29 de janeiro de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a terceira oficina do Projeto Redes de Conhecimento, com o apoio do FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Centro Cultural Butantã. O encontro teve como tema “Saúde mental: a escuta das crianças e adolescentes” e foi direcionado aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, Rede Socioassistencial e Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.

Os especialistas convidados para essa oficina foram Kwame Yonatan - Psicanalista, pós-doutor pela USP e doutor pela PUC-SP, supervisor  clínico e institucional, professor no Instituto Gerar, Centro de Estudos Psicanalíticos e na Casa do Saber, poeta e escritor,  possui quatro livros publicados: "Transverso", "Nasce um desejo", "Feliz para sempre?", "Por um fio: uma escuta das diásporas pulsionais". Em 2018, ganhou o prêmio "Jonathas Salathiel", promovido pelo CRP-SP. Tem experiência profissional em políticas públicas. Atualmente, também compõe o coletivo Margens Clínicas e é um dos articuladores do projeto "Aquilombamento nas Margens". Capoeirista do grupo Angoleiros do sertão. Pai da Kalihe Harumi e Dayô Maru; e Michele Borges, Psicóloga,  Psicanalista,  Membra do Fórum do Campo Lacaniano de SP e RJ Mestra e Doutoranda em Psicologia Social na PUC-SP no Núcleo de Psicanálise e Sociedade, Pesquisadora do NCAF- SGD da PUC-SP,  Mestranda em Ciências Sociais da FLACSO Argentina.

Kwame iniciou o encontro pontuando o fenômeno atual de patologização em massa e popularização do tema saúde mental, que pode banalizar a forma de tratarmos o problema, desconsiderando a complexidade de cada caso e a história de cada sujeito.  Dessa forma desloca a discussão sobre saúde mental do campo individual para o campo relacional. Kwame problematiza o crescimento excessivo da medicalização como forma de lidar com questões de saúde mental, perdendo espaço assim a palavra como forma de lidar com os conflitos e sintomas. Qual sentido se produz para os impasses e sofrimentos?

Michele traz em sua fala a questão mais específica dos serviços de acolhimento, problematizando o efeito das situações  vividas por essas crianças e adolescentes em sua saúde mental. Michele aponta a dificuldade das equipes em acolher a agressividade e comportamentos desafiadores, tentando muito mais docilizar corpos do que de fato tratar os problemas. Os comportamentos das crianças e adolescentes estão sempre relacionados à questões vividas em suas histórias - são uma forma de se comunicar e pedir ajuda. Para além das violências vividas, existe nesses casos uma forte presença da violência de Estado vivida pelas famílias pobres e em maioria negras. Qual é o impacto dessas questões na saúde mental? Como escutamos as crianças e adolescentes e também as equipes?

O diálogo entre os especialistas e com os participantes foi bastante provocativo, permitindo ampliar bastante a discussão - para além das questões individuais e comportamentos problemáticos - situando a discussão sobre o tema em um contexto social, racial, de classe e gênero.

Confira o vídeo com a oficina completa:


OFICINA - “Nascer, crescer e adolescer - perspectiva indígena”

OFICINA - “Nascer, crescer e adolescer - perspectiva indígena”

No dia 26 de novembro de 2025, o Instituto Fazendo História realizou a segunda oficina do Projeto Redes de Conhecimento, com o apoio do FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), na Associação Comercial de São Paulo – Comarca Butantã. O encontro teve como tema “Nascer, crescer e adolescer: Perspectiva indígena”. E foi direcionado aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, Rede Socioassistencial e Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.

A oficina contou com a presença de duas lideranças indígenas, Werá Alcides - liderança da Aldeia Nhanderekoa, T.I. Itanhaém SP, educador, artesão, palestrante sobre a cultura do seu povo, desempenhou o trabalho de agente ambiental no território Indígena Tenonde Porã , com foco da recuperação de área degradada; e Jerá Guarani - liderança da aldeia Kalipety, na T.I. Tenonde Porã, localizada do extremo Sul de SP, formada pela USP em 2008 em Pedagogia, hoje atua como Agente Ambiental, promovendo a recuperação de sementes tradicionais, recuperação de área degradadas, e realiza projetos de recuperação de florestas na T.I. Jerá também é escritora e tem um trabalho publicado pela Editora Companhia das Letrinhas, intitulado como "Nós" e um outro "Ju'i Poranduja" pela Editora FTD. Faz apontamentos e reflexões profundas sobre sua cultura, no trabalho político com as mulheres.

Alcides Werá inicia sua fala apontando que na perspectiva indígena o cuidado é coletivo. O cuidado com a mãe que acabou de ter filho, o cuidado do bebê que acabou de chegar, das infâncias e adolescências será sempre coletivo. Aponta que na sociedade não-indígena, a escola se torna o único espaço que promove essa vivência grupal.

Jerá Guarani traz um olhar interseccional ao tema, apontando para a diferenciação dos papéis de gênero ainda dentro da cosmovisão indígena. Refere o quanto a influência das tecnologias e acesso ao mundo “fora” da comunidade indígena tem interferido na saúde mental e desenvolvimento das crianças, adolescentes e suas famílias, como a ingestão de bebidas alcoólicas, drogas e necessidades de consumo. Complementa dizendo que os jovens das aldeias já estão submersos na cultura não-indígena, cabe a comunidade saber flexibilizar, compreendendo os desejos/ necessidades dos jovens, mas dentro dos preceitos indígenas. Cita por exemplo, a possibilidade da realização de bailes na aldeia, porém não é permitido o uso de álcool e drogas, pois isso não é da cultura indígena.

Jerá conta que não há possibilidade, dentro da cultura indígena, de encontrar uma pessoa em situação de rua, não existe “sem-teto”. Caso, haja alguém em vulnerabilidade ou com dificuldades, alguém irá acolher, a comunidade vai cuidar.

Confira o vídeo com a oficina completa: