No dia 27 de janeiro de 2017 foi realizada a oficina“Conversando sobre acolhimento familiar e primeira infância. O evento foi dividido em três momentos: no início do encontro, os Professores Charles Nelson da Universidade de Harvard e Nathan Fox da Universidade de Maryland, apresentaram os resultados de uma ampla pesquisa realizada na Romênia onde puderam comparar o desenvolvimento de crianças vivendo em instituições de acolhimento, crianças vivendo em famílias acolhedoras e crianças que nunca tinham sido institucionalizadas. Já no segundo momento,as responsáveis pelo Programa “Famílias Acolhedoras” do Instituto Fazendo História, Tatiana Barile e Roberta Vialli de Almeida, falaram sobre o desenvolvimento do programa que foi idealizado para acolher bebês de 0 a 2 anos em famílias voluntárias. Na última parte do encontro os participantes puderam fazer perguntas e debater com os palestrantes temas relacionados aos conteúdos apresentados e à realidade cotidiana dos serviços de acolhimento.

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O Prof. Charles Nelson iniciou a apresentação expondo dados sobre o acolhimento no mundo: atualmente há mais de 100 milhões de crianças e adolescentes em situação de abandono, negligência, violência e orfandade, sendo que entre 2 e 8 milhões estão acolhidos em abrigos. A constatação de que uma instituição não é o melhor ambiente para o crescimento e desenvolvimento de uma criança é antiga: em 1915, estudos mostravam que as melhores condições para o desenvolvimento de bebês e crianças estavam diretamente relacionadas à possibilidade de crescerem em uma casa junto à figura de uma mãe. Quanto maior o afastamento dessas necessidades vitais no início da vida, maior seria o fracasso em obter resultados adequados para as crianças acolhidas.

Com o objetivo de buscar novas saídas e formas alternativas para o acolhimento de crianças e adolescentes, os professores Charles Nelson e Nathan Fox desenvolveram uma pesquisa na Romênia intitulada Projeto de Intervenção Precoce em Bucareste (Bucharest Early Intervention Project). A cidade de Bucareste foi selecionada para este estudo, pois o presidente que governava o país, chamado Ceausescu, lançou em 1966 um decreto com diversas medidas para estimular a natalidade na Romênia. As medidas acabaram levando a um grande aumento da natalidade, o que fez com que em longo prazo houvesse um número muito alto de crianças em situação de abandono. 

A pesquisa

O Projeto de Intervenção Precoce de Bucareste (PIPB)teve início em 2001 e foi o primeiro estudo na área da assistência social que focou nos efeitos de diferentes formas de acolhimento na vida de crianças. Ao todo foram examinadas mais de 180 crianças. O desenho final do estudo compreendeu136 meninos e meninasque estavam internados e que tinham entre 6 e 31 meses (idade média = 20 meses). Dessa população, 68 crianças foram aleatoriamente designadas para permanecer em instituições e 68 foram aleatoriamente designadas para serem acolhidas por uma família nos moldes de um acolhimento familiar. Ainda havia um grupo controle de 72 crianças não-institucionalizadas. Após avaliação basal, as crianças foram avaliadas de forma abrangente aos 9, 18, 30 e 42 meses. Também foi realizada uma avaliação limitada aos 54 meses e extensas avaliações foram realizadas aos 8 e 12 anos, sendo que a avaliação aos 16 anos está em andamento.

A pesquisa possibilitou um estudo aprofundado de diferentes dimensões do desenvolvimento humano, tais como o desenvolvimento físico, linguagem, funcionamento social/emocional, cognição, inteligência, temperamento, capacidade de se vincular a um adulto, função cerebral, anatomia do cérebro, função autonômica (cardiovascular/ cortisol), genética/epigenética e psicopatologia. Após inúmeras avaliações das crianças envolvidas no estudo, os pesquisadores chegaram a algumas das seguintes conclusões:

·      Aos 54 meses, verificou-se que a institucionalização precoce levou a profundos déficits e atrasos nos comportamentos cognitivos (QI) e socioemocionais (ex. capacidade de se vincular). Houve uma incidência extremamente elevada de transtornos psiquiátricos e foram constatadas diferenças na atividade elétrica cerebral;

·      Apesar da família acolhedora mostrar-se mais efetiva no desenvolvimento das diferentes dimensões estudadas, para domínios específicos de atividade neural, linguagem, cognição e funcionamento sócio emocional parecem haver períodos (idades) sensíveis que regulam a recuperação. Embora os períodos sensíveis para a recuperação variem, os resultados sugerem que o ideal é que a criança seja colocada em uma família adotiva (quando for o caso) antes da idade de 2 anos;

·      Aos 8 anos, as crianças que permaneceram em instituições de acolhimento continuaram apresentando atrasos profundos em quase todos os domínios do estudo. Porém, as crianças que passaram pela família acolhedora tiveram resultados muito semelhantes às crianças nunca institucionalizadas (comunidade).Para domínios específicos de apego, responsividade emocional, transtornos de ansiedade e QI,as crianças colocadas em regime de acolhimento estão situadas no ponto médio entre as crianças que permaneceram em acolhimento institucional e as crianças da comunidade.

A segunda parte da oficina contou com a apresentação do Programa Famílias Acolhedoras do Instituto Fazendo História. A psicóloga Tatiana Barile iniciou a apresentação esclarecendo que atualmente, há aproximadamente 36 mil crianças e adolescentes acolhidos no Brasil, somando todas as modalidades de acolhimento para esse público: abrigo, casa lar, família acolhedora e república. Deste total, 1770 crianças e adolescentes estão sob os cuidados de famílias acolhedoras, existindo programas de acolhimento familiar em 315 municípios brasileiros, entre eles, Campinas, Joinville, Cascavel, Santos, Rio de Janeiro e Jundiaí. Na cidade de São Paulo existem 136 serviços de acolhimento institucional conveniados com a SMADS (Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social), com 2720 vagas para crianças e adolescentes e somente dois serviços de acolhimento familiar.

Tatiana reforçou a importância dessa modalidade de acolhimento prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e mencionou uma campanha mundial chamada #falepormim, da UNICEF com o apoio de diversas organizações da América Latina e Caribe, entre elas, a Rede Latino Americana de Acolhimento Familiar (RELAF). A campanha exibida no vídeo do link https://www.youtube.com/watch?v=ShddbB6fn2o visa o fim da institucionalização de crianças de até 3 anos de idade.

Após a exibição do vídeo, a coordenadora do Programa Famílias Acolhedoras, Roberta Vialli de Almeida, destacou os objetivos do programa, seu funcionamento e fez o relato de um caso atendido. Em relação aos objetivos, o programa visa oferecer acolhimento familiar a bebês e crianças de até 2 anos, em situação de alta vulnerabilidade pessoal e social, afastadas da família de origem ou extensa, como medida de proteção, excepcional e provisória. Roberta destacou que o programa não é uma adoção e nem caminho para adotar uma criança, sendo que a família acolhedora tem a guarda provisória da criança até que ela retorne à família de origem ou seja adotada.

Todo o processo de seleção, treinamento e acompanhamento das famílias acolhedoras até o início do acolhimento foi realizado de acordo com as etapas abaixo:

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Após o acolhimento, o acompanhamento técnico passou a ser realizado por meio de supervisões grupais quinzenais, acompanhamento familiar individual mensal e acompanhamento continuado via contatos telefônicos e aplicativo Whatsapp.Até o momento, 11 bebês foram atendidos pelo programa por 11 famílias acolhedoras. Desses 11 bebês, 6 retornaram para suas famílias de origem ou extensa e 1 bebê está em processo de aproximação com família adotiva.

Após a exposição geral do Serviço, Roberta fez a apresentação do caso da Amanda, que foi acolhida com 26 dias, diretamente do hospital e ficou sob cuidados da família acolhedora até 7 meses e 7 dias. O acolhimento deveu-se ao uso abusivo de drogas do pai e da mãe, moradores da região da Cracolândia. Um dos pontos importantes da narrativa sobre o caso está ligado ao fato de se compreender que “só é possível acolher a criança se também acolhermos a sua história”. Nesse sentido, a equipe do Programa fez um trabalho de investigação e desconstruiu verdades prévias sobre o interesse dos pais de Amanda pela filha.

Verificou-se que a bebê recebeu visitas dos pais todos os dias em que esteve no hospital, que seu irmãozinho ficou muito curioso e feliz com quando foi ao hospital escondido para conhecer a irmã, que sua mãe cantava e conversava com a filha, sendo que Amanda fixava seu olhar na genitora nesses momentos e,por último, que a mãe de Amanda ficou muito nervosa ao receber a notícia do acolhimento. Roberta deu prosseguimento ao relato do caso (que pode ser visto na integra no vídeo da oficina), porém é importante destacar que a equipe do Serviço promoveu uma importante aproximação entre Amanda e sua mãe e que no desfecho do caso, a tia materna acabou ficando responsável pela guarda da criança. A narrativa do caso de Amanda permitiu elencar os seguintes aspectos fundamentais na experiência do Instituto Fazendo História:

Na terceira parte os técnicos e educadores dos serviços de acolhimento fizeram diversas pesquisas e discutiram as particularidades dos diferentes serviços de acolhimento.

Aqui estão os vídeos com a íntegra da oficina: