No mês de outubro de 2023, o Instituto Fazendo História, em parceria com o Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONDECA) – SP, realizou a oficina: “Adoção - Reflexões Sobre as Práticas de Trabalho” nas cidades de Guarulhos e Campinas. Participaram como convidadas as profissionais Ana Clara Fusaro Silva Rodrigues, especialista em psicoterapia psicanalítica pelo CEPSI e mestre em Ciências pelo Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de São Paulo (USP); e Larissa Alves, adotiva, co-fundadora da Associação Brasileira de Pessoas Adotadas e do Adotivas Podcast.

Ana Clara deu início ao encontro apresentando sua experiência na graduação com grupos de pretendentes à adoção na cidade de Uberaba – MG, encaminhados através da Vara da Infância e Juventude após habilitados e, posteriormente, na cidade de São Paulo, em seu projeto de mestrado na USP. Enfatizou a adoção sob o ponto de vista psíquico onde, no momento em que ocorre a adoção, cria-se uma relação entre família de origem, família adotiva e a criança. É o momento em que as histórias se atravessam, mesmo que as famílias não se conheçam e nunca tiveram nenhum tipo de contato. Sendo assim, todo o histórico da criança ou adolescente incluindo os motivos do acolhimento e destituição do poder familiar, não devem ser desconsiderados ou ignorados pelos pretendentes a adoção, afirmou a profissional.

Outros pontos mencionados por Ana Clara são os dados de pessoas habilitadas atualmente: a maioria (cerca de metade) reside na região Sudeste do país e são famílias compostas por casais heterossexuais (casados ou sob união estável). Além disso, muitos desses casais buscaram a adoção por não conseguirem ter filhos biológicos, com histórico de frustrações e perdas, enfrentando ainda a resistência por parte de seus familiares quando tomam esta decisão. Em seguida, faz a reflexão de que o fato de famílias e pessoas estarem habilitadas para adoção não significa que estão prontos. Finalizou sua fala frisando a importância do cuidado nos processos de transições, sendo que as equipes de serviços de acolhimento tem o papel fundamental na transmissão de conhecimentos sobre a criança/adolescente (história, rotina, gostos, registros, saúde).

Larissa deu seguimento à oficina falando sobre a falta de referenciais sobre o que é ser adotivo, um exemplo disso é que só existe uma associação de adotivos no país. Em relação ao trabalho com famílias adotivas, mencionou a importância do acompanhamento efetivo nos pós adoção por parte do judiciário, a importância da preservação das origens e histórias de vida de adotivos e a falta de amparo legal que encontram ao tentar buscá-las. Além disso, ressaltou a falta de acompanhamento nas adoções compartilhadas em que algumas partes não cumprem o acordo, rompendo de forma drástica o vínculo entre irmãos e provocou a reflexão: de que forma podemos proporcionar o reencontro entre eles sem o amparo da lei?

A profissional enfatizou que os efeitos a longo prazo dos rompimentos de vínculos que os adotivos passam ao longo da vida não são considerados pela maioria dos profissionais que atuam nos serviços de garantia de direitos. As crianças ou adolescentes sempre precisam se adaptar à vida dos pretendentes e questões importantes como raça, cultura, linguística, entre outros devem ser considerados.

Larissa finalizou sua fala com a reflexão do quanto é indispensável a desconstrução da romanização e senso comum sobre adoção. Para isso, é necessário que os adotivos tenham espaço e visibilidade para falarem sobre o assunto e que os pretendentes sejam de fato preparados e acompanhados para esse processo, sem a intenção de que um(a) filho(a) virá para atender suas expectativas.



Ana Clara Fusaro Silva Rodrigues é psicóloga pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), especialista em psicoterapia psicanalítica pelo CEPSI e mestre em Ciências pelo Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de São Paulo (USP).

Larissa Alves é adotiva, jornalista, bacharel em direito, produtora audiovisual, co-fundadora da Associação Brasileira de Pessoas Adotadas e do Adotivas Podcast, escreve sobre perspectiva adotiva no @olharadotivo no Instagram, é produtora do canal Adotados no Youtube e pesquisa sobre emoções e direitos adotivos.

Assista à oficina na íntegra: clique aqui.