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OFICINA  – Cuidar e escutar: o letramento racial para o sistema de garantia de direitos de crianças e adolescentes

OFICINA – Cuidar e escutar: o letramento racial para o sistema de garantia de direitos de crianças e adolescentes

No dia 24 de julho de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a 9ª  oficina do Projeto Redes de Conhecimento, com o apoio do FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente),  na Biblioteca Jamil Almansur Haddad, região de Guaianases. O encontro teve como tema “Cuidar e escutar: o letramento racial para o sistema de garantia de direitos de crianças e adolescentes” e foi direcionado aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, Rede Socioassistencial e Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.

Os profissionais convidados para essa oficina foram: Washington Góes: Doutorando em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), Mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), especialista em Cultura, Educação e Relações Étnico-Raciais (USP) e em Socioeducação (UnB); e Nayane Marques: Licenciada em História (UNISA) e Pedagogia (FEUSP), mestranda em Educação na FEUSP, na linha Cultura, Filosofia e História da Educação. 

Góes iniciou a formação delimitando o objetivo de promover a reflexão sobre o impacto das relações raciais nas práticas de cuidado e escuta de crianças e adolescentes, visando a equidade racial. Alertou que, no Brasil, é impossível discutir infância e adolescência sem considerar marcadores sociais como raça, classe e gênero. Segundo ele, a infância não é um conceito universal ou biológico fixo, mas sim, uma construção histórica e social, que diferentes sociedades e contextos produzem diferentes noções de ser criança. No cenário brasileiro, apenas um grupo social historicamente desfrutou do ideal de "infância protegida", enquanto os demais foram empurrados para a margem. Falou sobre a doutrina da situação irregular a partir do antigo Código de Menores, que permitia ao Estado intervir e institucionalizar seletivamente a infância pobre, negra e indígena. O termo "menor" virou sinônimo de vulnerabilidade criminalizada. Seguiu abordando a mudança de paradigma, a partir do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), para a Doutrina da Proteção Integral, que reconhece todas as crianças e adolescentes como sujeitos de direitos e pessoas em desenvolvimento.

Dando sequência ao debate, Nayane Marques trouxe uma sua contribuição teórica sobre a estrutura do racismo no país. A profissional caracterizou a raça como uma construção social, mencionando que embora não possua base biológica, a raça opera como uma ficção política que, ao longo da história, serviu para hierarquizar a humanidade, justificando opressões e a distribuição desigual de privilégios. Aprofundou a diferenciação entre dois conceitos essenciais como: Raça - Categoria política e social baseada em traços fenotípicos e dinâmicas de poder, e Etnia - Categoria cultural, que envolve pertencimento a um grupo com língua, tradições, cosmologias e territórios partilhados. Fez uma crítica quanto ao debate público no Brasil, indicando que a discussão sobre o racismo costuma ser polarizada estritamente entre negros e brancos. Essa centralidade invisibiliza os povos indígenas, silenciando suas demandas específicas e as violências que suas crianças e adolescentes sofrem sistematicamente. Para instrumentalizar a rede de proteção, os profissionais revisitaram as tipologias do racismo, fundamentais para identificar as violações no cotidiano institucional tais como: Racismo Individual; Racismo Institucional e Racismo Estrutural.

Por fim, os profissionais indicaram que o acesso à justiça e mediação qualificada são indispensáveis quando ocorrem episódios de racismo, para transformar a cultura institucional e curar os traumas gerados pela discriminação. Racismo é crime inafiançável e imprescritível no Brasil. O Sistema de Garantia de Direitos deve ser rigoroso na denúncia, notificação e encaminhamento legal dos casos. Praticar o letramento racial é, portanto, desenvolver a habilidade de escutar a dor do racismo sem minimizá-la e agir com a firmeza que a proteção da infância brasileira exige.

Confira o vídeo da oficina completa: 

OFICINA – “Matricialidade sociofamiliar em debate: Entre a proteção e o controle, qual é o lugar da família no SUAS?”

OFICINA – “Matricialidade sociofamiliar em debate: Entre a proteção e o controle, qual é o lugar da família no SUAS?”

No dia 15 de julho de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a décima quarta oficina do Projeto Formação em Redes, iniciativa apoiada pelo FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Instituto Pólis. Com o tema “Matricialidade sociofamiliar em debate: Entre a proteção e o controle, qual é o lugar da família no SUAS?”, a atividade foi direcionada aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, na Rede Socioassistencial e no Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.

A oficina contou com a participação de Aline Fogaça, assistente social na Prefeitura Municipal de São Bernardo do Campo/SP, Mestra e Doutora em Serviço Social PUC-SP/CNAM Paris. Professora da Faculdade Paulista de Serviço Social de São Caetano do Sul e supervisora técnica de equipes e serviços no âmbito do SUAS. 

Aline iniciou o encontro realizando breve resgate sobre o processo de construção e implementação da Política Nacional de Assistência Social (PNAS) e do Sistema Único da Assistência Social, destacando as mudanças de paradigma na concepção de família e na forma de compreender as situações de vulnerabilidade e desproteção social. Nesse percurso, discutiu-se o conceito de família em sua pluralidade, reconhecendo os diferentes arranjos e configurações familiares presentes na sociedade contemporânea. 

A especialista abordou a relação entre vulnerabilidade, negligência e desproteção social, problematizando a tendência de responsabilizar exclusivamente às famílias pelas situações vivenciadas. Aline destaca que a atuação profissional precisa estar atenta para que o acompanhamento não se transforme em mecanismo de fiscalização, vigilância ou responsabilização moral das famílias. O trabalho social deve favorecer a construção de vínculos, a escuta qualificada, o acesso a direitos e o fortalecimento da autonomia, reconhecendo as famílias como sujeitos de direitos e não como objetos de intervenção. 

Por fim,o encontro possibilitou refletir sobre o lugar da matricialidade sociofamiliar no SUAS, questionando a ideia de uma família permanentemente “capaz” de responder sozinha às demandas de proteção de seus integrantes. Reconhecer a centralidade da família não significa transferir para ela a responsabilidade pela garantia da proteção social. Ao contrário, implica reconhecer suas potencialidades e necessidades, compreendendo que o Estado possui responsabilidade fundamental na oferta de políticas públicas e na garantia de condições para que as famílias possam exercer suas funções de cuidado e proteção. 

Confira o vídeo com a oficina completa:

OFICINA  – "P.P.P. - Projeto Político Pedagógico"

OFICINA – "P.P.P. - Projeto Político Pedagógico"

No dia 12 de junho de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a 8ª  oficina do Projeto Redes de Conhecimento, com o apoio do FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Espaço Comunidade Cultural Quilombaque, região de Perus. O encontro teve como tema “P.P.P. - Projeto Político Pedagógico” e foi direcionado aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, Rede Socioassistencial e Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.

Os profissionais convidados para essa oficina foram: Valéria Gonçalves Pássaro - Educadora com formação em psicologia e pedagogia libertária, coordena e desenvolve processos de formação em política de assistência e desenvolvimento social. Foi Coordenadora Pedagógica; Diretora Executiva – Moradia Associação Civil: trabalho com crianças e jovens em situação de grave risco social; Diretora - Agência de Desenvolvimento Social – AGENDES e Joroedson Marçal de Almeida - Educador social - Pedagogo,  coordenou por 10 anos Casas das Expedições e Casas Taiguara; Especialista em Grupos Operativos – método Pichon Rivière; Experiência em diagnóstico institucional e estruturação de Plano Político Pedagógico.

Valéria iniciou sua fala de forma participativa, mapeando o entendimento e o contato prévio dos presentes com o PPP, a partir desta escuta junto à sua trajetória na área, destacou premissas importantes para o serviço. Indica que o PPP não se resume ao papel (escrito) - ele precisa estar gravado (inscrito) na postura diária dos trabalhadores do serviço, trazer a marca do grupo e estar fincado no território. O acolhimento não pode ser uma ilha isolada da comunidade.

Um serviço de acolhimento lida com vidas em constante transformação. Por isso, o PPP é um documento de escuta e integração, essencialmente flexível e que exige revisão periódica. O acolhimento atende a diversas realidades, idades e vivências - o projeto deve acolher essas singularidades, e não tentar padronizá-las.

Para Valéria, a elaboração do PPP funciona como um processo de conscientização. Construir esse plano exige responder a três perguntas que dão intencionalidade ao cotidiano do acolhimento: De onde eu vim? (O histórico do serviço e a bagagem da equipe); Onde estou? (O diagnóstico atual do serviço e as demandas do território) e Para onde se quer ir? (Os objetivos para o desenvolvimento e autonomia de cada acolhido). Segundo ela: "O PPP também é um embate do que queremos para a Política Pública."

Para fundamentar essa visão, ela apresentou seu repertório teórico e prático de outros projetos e autores da área, conectando as normativas técnicas do SUAS à prática diária.

Dando sequência à oficina, o educador Joroedson (Joro) trouxe a perspectiva prática de quem atua diretamente no cotidiano do atendimento, ao compartilhar sua experiência no Projeto Expedições, destacou dois pilares indispensáveis: um serviço de acolhimento funciona 24 horas por dia e envolve múltiplos turnos. Sem a integração da equipe de trabalhadores — cuidadores, educadores, equipe técnica e apoio —, o atendimento se fragmenta. Reforçou que o grupo precisa caminhar em sintonia para manter a mesma intencionalidade protetiva.

O ponto alto da fala de Joro foi a defesa da autonomia e do protagonismo dos acolhidos - o PPP não deve ser feito apenas para eles, mas com eles. Abrir o processo de produção das atividades para a participação ativa das crianças e adolescentes transforma a rotina do acolhimento, promove a escuta qualificada e fortalece o sentimento de pertença.

A oficina deixou claro que, na Assistência Social, o Projeto Político Pedagógico é um instrumento de garantia de direitos, ele tira o serviço do "ativismo sem rumo" e confere intencionalidade política e pedagógica a cada ação realizada dentro do acolhimento.

OFICINA – “Pensando o Acolhimento Familiar: Reflexões e práticas sobre medicalização das infâncias"

OFICINA – “Pensando o Acolhimento Familiar: Reflexões e práticas sobre medicalização das infâncias"

No dia 26 de junho de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a nona oficina do Projeto Formação em Redes, com o apoio do FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), na Embaixada Preta - Casa Preta Hub. O encontro teve como  tema “Pensando o Acolhimento Familiar: Reflexões e práticas sobre medicalização das infâncias”, o encontro reuniu profissionais dos Serviços de Acolhimento Familiar, famílias acolhedoras e trabalhadores da Rede Socioassistencial e do Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.

A oficina contou com a participação de Mariana Desenzi, psicanalista, graduada e mestre em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP. Mariana foi trabalhadora do SUS entre 2015 e 2025, atuou como coordenadora e supervisora de Cursos de Aprimoramento e Estágios Extracurriculares da PUC-SP entre 2021 e 2024, é membra do Laço Analítico/Escola de Psicanálise e atua como supervisora clínica.

Ao longo do encontro, Mariana Desenzi nos convidou a olhar com mais cuidado para os sentidos de medicalização e patologização e para a forma como nomeamos o sofrimento de crianças e adolescentes. Em muitas situações, comportamentos e sentimentos próprios da experiência humana podem ser rapidamente interpretados como sintomas ou problemas a serem tratados. Embora o saber médico possa ser um importante recurso de cuidado e a medicação possa, em alguns casos, contribuir para amenizar sofrimentos, ela não é o único caminho possível. Antes de reduzir uma experiência a um diagnóstico, é importante escutar o que aquela criança ou adolescente está vivendo, considerando sua história, seus vínculos, sua forma singular de expressar sentimentos e as condições que atravessam sua vida.

Essa reflexão também nos levou a pensar sobre a ambiência, os vínculos e as condições concretas de vida como parte fundamental do cuidado em saúde mental. Cada criança e adolescente possui recursos diferentes para lidar com as experiências e, por isso, mesmo quando vivem situações semelhantes, suas formas de responder podem ser muito distintas. Garantir direitos como moradia, saúde, educação, lazer e convivência familiar e comunitária também é cuidar. 

Nesse sentido, a oficina reforçou a importância de uma atuação multiprofissional e articulada em rede, capaz de reunir diferentes olhares e construir respostas menos naturalizadas e mais sensíveis à complexidade de cada situação. Mais do que buscar respostas prontas, trata-se de sustentar a escuta, ampliar as possibilidades de cuidado e reconhecer cada criança e adolescente em sua singularidade e em sua história.

Confira o vídeo com a oficina completa

OFICINA - "Saúde Mental: A escuta no contexto do Acolhimento"

OFICINA - "Saúde Mental: A escuta no contexto do Acolhimento"

No dia 29 de maio de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a 7ª  oficina do Projeto Redes de Conhecimento, com o apoio do FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Espaço Comunidade Cultural Quilombaque, região de Perus. O encontro teve como tema “ Saúde Mental: A escuta no contexto do Acolhimento” e foi direcionado aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, Rede Socioassistencial e Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.

Os profissionais convidados para essa oficina foram: Paulo Bueno, psicanalista, psicólogo (PUC-SP), mestre e doutor em Psicologia Social (PUC-SP).  Supervisor clínico e integrante do Departamento de Psicanálise com Crianças (Sedes Sapientiae), coordenador do Módulo Psicanálise e Sociedade do Instituto Gerar de Psicanálise, professor convidado do Programa Fellowship - 2021/2022 (Columbia University), colaborador do Instituto AMMA Psique & Negritude - 2020/2021, coordenador do Grupo de Estudo Clínica Psicanalítica e Relações Raciais e autor de "Coisas que o Pedro me ensina: crônicas de uma paternidade"; e Michele Borges, Psicóloga,  Psicanalista,  Membra do Fórum do Campo Lacaniano de SP e RJ, mestra e doutoranda em Psicologia Social na PUC-SP no Núcleo de Psicanálise e Sociedade, Pesquisadora do NCAF - SGD da PUC-SP, mestranda em Ciências Sociais (FLACSO Argentina).

A fim de explanar sobre o cenário atual dos serviços de acolhimento, Paulo propõe um resgate histórico necessário: a transição do modo asilar para o modo psicossocial. Indicou que a Reforma Psiquiátrica brasileira criou serviços substitutivos essenciais, como os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) e a RAPS (Rede de Atenção Psicossocial), porém, as amarras do passado ainda respingam no presente. Muitas vezes, o objetivo político do Estado ainda se resume a "manter a ordem pública", esvaziando o verdadeiro sentido do cuidado.

Nesse cenário, Paulo defende a consolidação da clínica ampliada a partir de três premissas: Direito Soberano - O sujeito da saúde mental não é apenas um diagnóstico; ele é, primordialmente, um sujeito de direitos; Demanda x Reivindicação -  é preciso ir além da queixa imediata e entender o que o sujeito está reivindicando social e politicamente e Discurso Multidisciplinar - A saúde mental não pode ser reduzida ao discurso do psiquiatra ou a uma visão puramente assistencialista. 

Num segundo momento, Michele traz o debate para a realidade prática dos abrigos e instituições, compartilhando dados de sua pesquisa sobre o fluxo que vai "da clínica para o institucional". Sua primeira grande crítica gira em torno da violência institucional. Muitas vezes, é a desproteção do próprio Estado contra as famílias vulneráveis que gera o motivo do acolhimento. Ao problematizar o preenchimento de documentos legais, a profissional aponta uma realidade incômoda: no Brasil, o Estado historicamente tutela a infância pobre e negra. Michele traça um contraste evidente entre os contextos sociais: Recorte de Classe - enquanto a classe média acessa redes de garantia mercadológicas, a periferia lida com a burocracia punitiva do Estado. Michele apresentou alguns exemplos de sua realidade profissional e realizou o paralelo com a abolição: fez uma analogia entre o modelo de proteção atual e o período pós-abolição no Brasil, onde corpos negros eram libertos formalmente, mas deixados à margem da sociedade, sem amparo estrutural. Neste sentido aponta o “desacolhimento” como reflexo desse passado. Ao completarem 18 anos, muitos adolescentes são desligados do sistema sem nenhuma garantia de inserção digna no mercado de trabalho ou na moradia, perpetuando o ciclo de vulnerabilidade.

Por fim, tanto a fala de Paulo quanto a de Michele convergem para um mesmo ponto: a necessidade de romper com lógicas isoladas. Não podemos reduzir o sofrimento psíquico à medicalização, assim como não podemos tratar o acolhimento institucional como mero depósito de corpos. A saúde mental e a proteção à infância exigem um pacto coletivo: é preciso garantir que a escuta seja um espaço de emancipação e que o direito à dignidade não dependa da classe social ou da cor da pele.

Assista a oficina na íntegra: 

OFICINA – “Além do processo: os bastidores da adoção e o papel dos profissionais da Rede de Proteção” 

OFICINA – “Além do processo: os bastidores da adoção e o papel dos profissionais da Rede de Proteção” 

No dia 17 de junho de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a décima terceira oficina do Projeto Formação em Redes, iniciativa apoiada pelo FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Instituto Pólis. Com o tema “Além do processo: os bastidores da adoção e o papel dos profissionais da Rede de Proteção”, a atividade foi direcionada aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, na Rede Socioassistencial e no Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.

A oficina contou com a participação de Larissa Alves, filha adotiva, jornalista, bacharela em Direito e dramaturga. Cofundadora da Associação Brasileira de Pessoas Adotadas e do projeto Olhar Adotivo, tendo também idealizado o Adotivas Podcast.

Durante o encontro, Larissa compartilhou sua trajetória e suas vivências como filha adotiva, destacando a importância de compreender a adoção a partir da perspectiva das pessoas adotadas, e não apenas das expectativas de quem adota. Entre os temas abordados, ressaltou o direito à verdade e às origens como elementos essenciais para a construção saudável da identidade e da saúde psíquica, bem como a necessidade de preservar a história dos grupos de irmãos durante o processo de adoção. Nesse contexto, enfatizou que instrumentos como as "Cartas da Vida" e metodologias sistemáticas de trabalho com histórias de vida podem ser fundamentais para preservar a memória, a identidade e o sentimento de pertencimento de crianças e adolescentes.

Destacou a importância do acesso aos históricos médicos, aos mapeamentos genéticos e às informações biográficas, além da urgência de desenvolver estratégias institucionais que garantam registros qualificados das trajetórias de vida das crianças e dos adolescentes. Outro aspecto abordado foi a possibilidade de desarquivamento dos processos de adoção, diante da recorrente ausência de informações que permitam às pessoas adotadas conhecer sua própria história. Larissa também chamou atenção para a escassez de dados consolidados sobre a adoção legal no Brasil e para a necessidade de refletir sobre os números de crianças e adolescentes considerados "disponíveis para adoção", compreendendo os contextos que antecedem essa condição.

Também foram debatidos os impactos da transição de classe social e das experiências de racismo na construção da identidade, reconhecendo que marcadores sociais, como raça, classe e gênero, atravessam de maneira significativa a experiência das pessoas adotadas. As reflexões reforçaram a importância de promover processos de adoção comprometidos com a garantia de direitos, com a preservação das histórias de vida e com a escuta qualificada das crianças, dos adolescentes e das pessoas adultas que vivenciaram a adoção.

Confira o vídeo com a oficina completa:

OFICINA – “Diagnóstico ou rotulação? Reflexões e práticas sobre a medicalização nas infâncias e adolescências"

OFICINA – “Diagnóstico ou rotulação? Reflexões e práticas sobre a medicalização nas infâncias e adolescências"

No dia 20 de maio de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a décima segunda oficina do Projeto Formação em Redes, iniciativa apoiada pelo FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Instituto Pólis. Com o tema “Diagnóstico ou rotulação? Reflexões e práticas sobre a medicalização nas infâncias e adolescências" e foi direcionado aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, na Rede Socioassistencial e no Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.

A oficina contou com a participação de Flávia Cézari, Psicóloga e Psicanalista, graduada e mestranda em Psicologia Clínica no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, membro associado do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e pesquisadora das infâncias e adolescências vulnerabilizadas. 

Flávia iniciou o encontro com reflexões sobre a importância de observar as situações de desproteção das infâncias e juventudes, destacando os desafios atuais das políticas públicas de saúde em atender números cada vez mais expressivos relacionados aos diagnósticos de transtornos e de dificuldades comportamentais entre crianças e adolescentes.

A convidada destaca que é necessário considerar alguns eixos antes de traçar algum diagnóstico e que perguntas como: “A pessoa possui um trabalho?”, “Como estão suas relações com a família?”, “Em que contexto ela está vivendo?”, podem ser instrumentos metodológicos antes de rotular comportamentos ou experiências por meio de um diagnóstico. Muitas vezes, comportamentos relacionados ao sofrimento social são compreendidos apenas como sintomas individuais.

A oficina apresentou os conceitos de medicalização e a diferença entre transtorno e sofrimento mental, abordou sobre os desafios atuais no uso da medicalização como uma alternativa em contornar problemas de outras ordens, a busca de soluções rápidas para os problemas através do uso expressivo de medicamentos.

Dessa forma, Flávia nos convida a refletir sobre quais práticas pedagógicas e de cuidado podem tornar-se mais acolhedoras e menos normatizadoras e da importância de que crianças e adolescentes possam ser vistos a partir de suas potencialidades, e não de diagnósticos. 

Confira o vídeo com a oficina completa: 

OFICINA – "Como construir regras e limites no serviço de acolhimento sem negociar o cuidado?"

OFICINA – "Como construir regras e limites no serviço de acolhimento sem negociar o cuidado?"

No dia 15 de abril de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a décima oficina do Projeto Formação em Redes, iniciativa apoiada pelo FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Instituto Pólis. Com o tema “Como construir regras e limites no serviço de acolhimento sem negociar o cuidado?”, o encontro reuniu profissionais dos Serviços de Acolhimento, Rede Socioassistencial e  Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo para uma reflexão profunda sobre práticas de cuidado, convivência e proteção.

A oficina foi conduzida por Camila Gibin Melo, educadora popular, assistente social, doutora em Serviço Social e professora da FAPSS/SCS. Atuante nas lutas territoriais e abolicionistas penais, Camila coordena o Núcleo Samaúma, onde desenvolve formação para equipes do SUAS e do SUS. É também autora do livro Acumulação do Capital, Infância e Adolescência: um estudo sobre ser criança no capitalismo.

Logo no início, Camila convidou os participantes a refletir sobre sua própria relação com regras e limites e como essas questões atravessam o cotidiano do trabalho socioassistencial. A partir dessa provocação, apresentou uma análise histórica e teórica dos mecanismos de punição e controle social, destacando como determinadas lógicas punitivistas foram sendo construídas e naturalizadas ao longo do tempo, especialmente no contexto da sociedade capitalista, em que a disciplina e a adequação às normas ocupam um papel central.

Camila apresentou contribuições do antiproibicionismo e da educação popular - perspectivas que problematizam práticas de controle e tutela e defendem a construção de relações baseadas no diálogo, na participação crítica e no reconhecimento das pessoas como protagonistas de suas próprias trajetórias. A partir dessas referências, os participantes foram convidados a pensar sobre os desafios de construir regras e limites nos serviços de acolhimento sem abrir mão do cuidado, da garantia de direitos e do respeito às singularidades de cada sujeito.

Mais do que oferecer respostas prontas, o encontro abriu espaço para reflexões fundamentais sobre as práticas institucionais e sobre a possibilidade de construir intervenções cada vez mais comprometidas com a escuta, a autonomia e a proteção integral de crianças, adolescentes e suas famílias.

Confira o vídeo com a oficina completa: 

OFICINA - “Cultura e arte na periferia - vozes das crianças e adolescentes”

OFICINA - “Cultura e arte na periferia - vozes das crianças e adolescentes”

No dia 24 de abril de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a sexta oficina do Projeto Redes de Conhecimento, com o apoio do FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Espaço Comunidade Cultural Quilombaque, região de Perus. O encontro teve como tema “Cultura e arte na periferia - vozes das crianças e adolescentes” e foi direcionado aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, Rede Socioassistencial e Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo. As especialistas convidadas para essa oficina foram as integrantes da Cia Muvuca: Samanta Biotti – atua desde 2008 desenvolvendo projetos de literatura e artes em escolas, Fábricas de Cultura e na Fundação CASA. É pedagoga, cofundadora do Sarau da Brasa, Cia Muvuca e do Centro de Memória – Nascentes da Brasa. Desenvolve formações em São Paulo e Santo André sobre a primeira infância, o brincar, ética e o papel do educador social, além de palestras sobre assédio institucional e as Leis 10.639/03 e 11.645/08. Idealizadora do projeto “Letra é Treta” (letramento socioeducativo), é também escritora e poeta, autora de “O Boldo que queria ser melancia”. Com textos publicados na Argentina e no Chile, levou sua voz à Feira do Livro de Buenos Aires e ao Encontro de Poesia Hablada em Havana, Cuba; e Sthefânia Carvalho: Psicóloga e especialista em psicanálise com crianças. Batuqueira e brincante. Mãe. Trabalhadora do SUS com enfoque em atenção psicossocial e promoção de saúde coletiva. Integrante do grupo de trabalho e pesquisa SUSTENTAR - Infâncias, psicanálise e saúde pública. No campo da cultura, integra diversos coletivos que articulam arte, infâncias, educação, território, e garantia de direitos: Cia MUVUCA, Revoada Cantante, Sarau da Brasa e Cordão Carnavalesco do Samba do Congo.

O encontro foi permeado por vivências envolvendo os sentidos dos participantes, o canto e os tambores, além das falas das especialistas, que foram bastante mobilizadoras para todo o grupo. Sthefânia iniciou trazendo questões importantes sobre a escuta das crianças e adolescentes no cotidiano dos serviços de acolhimento e as possibilidades de expressão através da arte e cultura. Contou sobre sua experiência na realização de saraus como um recurso para propiciar essa expressão de histórias e experiências. Abordou também os desafios de sustentar a escuta no cotidiano - por conta das demandas diversas dos trabalhadores - ressaltando que ela não é feita somente por psicólogas, e sim por toda a equipe. As falas das crianças e adolescentes muitas vezes vêm através de seus comportamentos desafiadores e é importante a equipe poder fazer essa leitura para acolher e ajudar a transformar o que sentem em palavras ou outras formas expressivas.

Samanta relatou suas experiências em projetos culturais com crianças e adolescentes em uma fala permeada por seus poemas e intervenções. A partir de sua história, traz seus conceitos de arte e cultura - como e porque fazemos arte. Segundo ela, a arte pode servir para um universo de coisas - ampliar perspectivas e talvez fazer com que aceitemos nosso sofrimento de forma mais branda, acolher os processos com tempo de contemplação. A cultura se relaciona às formas como age, pensa, dialoga. Ela pode ser - e é - constantemente modificada.

A partir das apresentações, os trabalhadores foram levados a refletir sobre as possibilidades de construção de espaços de arte, cultura e expressão no cotidiano. Foi uma manhã de inspiração e reflexão. Assista a oficina na íntegra!

OFICINA - “Adoção - boas práticas e desafios”

OFICINA - “Adoção - boas práticas e desafios”

No dia 20 de março de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a quinta oficina do Projeto Redes de Conhecimento, com o apoio do FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Espaço Comunidade Cultural Quilombaque, região de Perus. O encontro teve como tema “Adoção - boas práticas e desafios” e foi direcionado aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, Rede Socioassistencial e Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.

As especialistas convidadas para essa oficina foram: Ana Clara Fusaro Rodrigues - Psicóloga (UFTM), Mestre em Psicologia Clínica (IP/USP) e Especialista em Psicoterapia Psicanalítica (CEPSI Ryad Simon). Atualmente é Vice-presidente da Associação de Psicoterapia Psicanalítica de São Paulo (APP). Desde 2022 atua pelo IFH no Projeto EI-3 - Impactos de Intervenções sobre a Institucionalização Precoce - dedicando-se ao fortalecimento de vínculos entre bebês acolhidos e seus cuidadores. De 2016 a 2021 esteve na coordenação de grupos preparatórios com pretendentes à adoção e rodas de conversa com pais adotivos nas universidades UFTM e USP. Segue trabalhando com a temática da adoção em consultório particular, através do projeto Entrelaços, que inclui atendimento clínico, grupos de estudo e supervisão; e Larissa Alves: jornalista, bacharela em direito e dramaturga. Filha adotiva, é co-fundadora da Associação Brasileira de Pessoas Adotadas (ADOTIVA) e do Adotivas podcast, além de idealizadora do projeto @olharadotivo nas redes sociais.

Ana Clara inicia a oficina trazendo dados do CNJ sobre os pretendentes à adoção e as escolhas que colocam sobre o perfil da criança que vão receber. Observa que isso leva muitas vezes a idealizar o filho que vai chegar. É importante avaliar o quanto de fato a família está preparada para receber a criança real, aceitando que ela não nasceu naquele momento e tem uma história pregressa particular. O processo de aproximação deve ser gradual, respeitando o tempo das crianças. O papel do educador e família acolhedora nesse processo é fundamental, pois são quem mais tem informações sobre as crianças no cotidiano. Com relação ao trabalho com as crianças e adolescentes, é importante validar e acolher todas as suas expressões, seja por falas ou comportamentos. A adoção é, para a criança ou adolescente, um processo de transição bastante delicado e não pode ser feito de forma abrupta.

Larissa inicia contando sua trajetória como pessoa adotada, a importância da história de vida e a falta de informações sobre essa experiência particular. A partir da conversa com outras pessoas adotadas, passou a se entender melhor e entender as informações importantes a serem elaboradas desse processo. Criaram nesse processo a Associação Brasileira de Pessoas Adotadas. Existem lacunas como por exemplo a falta de espelhamento genético e informações sobre a ancestralidade. Larissa compara a adoção a um processo de migração e os adotivos aos refugiados. Fala também sobre os direitos às origens e ao desejo comum dos adotivos de terem esse conhecimento de onde vieram - apesar do medo de decepcionar a família adotiva. Finaliza trazendo a ideia de que a adoção existe como reflexo de um problema social.

Assista a oficina na íntegra!

OFICINA – "O Trabalho com história de vida”

OFICINA – "O Trabalho com história de vida”

No dia 27 de fevereiro  de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a décima oficina do Projeto Formação em Redes, com o apoio do FUMCAD, na Embaixada Preta - Casa Preta Hub. O encontro teve como tema “O trabalho com histórias de vida” Serviços de Família Acolhedora, Famílias Acolhedoras vinculadas aos serviços e a Rede Socioassistencial e Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.

A oficina contou com a participação de Renata Pante, formada em Arquitetura e Urbanismo pela USP e mestre em Museologia pela mesma instituição. Possui experiência em gestão, organização de acervos e projetos de memória, atuando desde 2018 no Museu da Pessoa, onde coordena o Centro de Educação, Memória e Pesquisa.

Renata  apresentou o trabalho desenvolvido pelo Museu da Pessoa, um museu virtual e colaborativo criado em 1991, que tem como objetivo registrar, preservar e divulgar histórias de vida de pessoas comuns, transformando essas histórias em patrimônio cultural e memória coletiva. Diferente dos museus tradicionais, seu acervo não é composto por objetos, mas por narrativas de vida em formato de vídeos, áudios, textos e fotografias. O trabalho do museu envolve entrevistas e projetos de memória em comunidades, escolas e organizações sociais, valorizando a identidade, a cultura e a história das pessoas e dos territórios. Sua metodologia, chamada Tecnologia Social da Memória, permite que grupos e comunidades registrem suas próprias histórias, fortalecendo vínculos, identidade e pertencimento social.

A oficina possibilitou reflexões importantes, considerando a realidade dos serviços de acolhimento. As crianças e adolescentes acolhidos vivenciam rupturas, perdas e mudanças que podem fragmentar sua identidade e sua memória. O trabalho com a história de vida, por meio de atividades como livro da vida, linha do tempo, registro de memórias e escuta das narrativas, contribui para a construção da identidade, o fortalecimento da autoestima e a elaboração das experiências vividas no acolhimento.

Por fim, os participantes puderam fazer perguntas sobre o processo de escuta, organização das histórias de vida e demais dúvidas relacionadas ao tema. Assim como o Museu da Pessoa preserva memórias e histórias como patrimônio, o trabalho nos serviços de acolhimento ajuda a criança e o adolescente a organizar sua própria história, compreender sua trajetória e se reconhecer como sujeito de direitos e de história.

Confira o vídeo com a oficina completa:

OFICINA - “O trabalho com grupo de irmãos - tecendo redes para preservar o convívio familiar”

OFICINA - “O trabalho com grupo de irmãos - tecendo redes para preservar o convívio familiar”

No dia 27 de fevereiro de 2026, o Instituto Fazendo História realizou a quarta oficina do Projeto Redes de Conhecimento, com o apoio do FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Espaço Cultural Moringa, região do Butantã. O encontro teve como tema “O trabalho com grupo de irmãos: tecendo redes para preservar o convívio familiar” e foi direcionado aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, Rede Socioassistencial e Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.

As especialistas convidadas para essa oficina foram Lara Naddeo: psicóloga (PUC-SP),  mestre em intervenção psicossocial (Univ. de Barcelona), com formação em psicanálise da perinatalidade e parentalidade pelo Instituto Gerar. Atuou por mais de 10 anos no universo do acolhimento de crianças e adolescentes através de seu trabalho no Instituto Fazendo História. É coautora do Guia de Acolhimento Familiar e, atualmente, trabalha em consultório, atua como doula de adoção e desenvolve consultorias e projetos na área do acolhimento e da primeira infância; e Fê Lopes: Psicóloga clínica, palestrante, comunicadora  com foco em gênero, raça parentalidades e infâncias. Atua na promoção de saúde emocional com perspectiva interseccional. É co-criadora da I Semana de Apoio à Amanda Negra no Brasil (2020), iniciativa pioneira.

Juntas, iniciaram com uma dinâmica para os participantes, pedindo que escrevessem o que desejavam e sonhavam para a relação de seus filhos ou o que achavam que seus pais desejavam para a relação deles com seus irmãos. Lara também trouxe uma matéria falando do reencontro por acaso de irmãos que foram adotados separadamente e não sabiam. A partir dessas informações, as especialistas discutiram o direito da convivência entre irmãos e o direito à história de vida e à participação das crianças e adolescentes em seus processos. Problematizaram também as definições sobre vínculo, que inclui também conflitos e momentos de maior proximidade ou separação. Fê traz aspectos sobre o que significa ser irmãos, compartilhar a mesma história.  É importante trabalharmos a idealização que se tem do modelo de família perfeita, que não se aplica na realidade - cada caso é um caso e deve ser trabalhado em suas especificidades.

No momento final da oficina, foram realizadas discussões de casos em grupos, pensando-se em estratégias para o trabalho nos serviços de acolhimento com grupos de irmãos e também nos casos em que as separações são inevitáveis.

Confira o vídeo com a oficina completa:

OFICINA –  "Educador, Orientador e Cuidador: Papéis e desafios dos profissionais no cotidiano"

OFICINA – "Educador, Orientador e Cuidador: Papéis e desafios dos profissionais no cotidiano"

No dia 17 de setembro de 2025, o Instituto Fazendo História realizou a quinta oficina presencial do Projeto Formação em Redes, com o apoio do FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Instituto Pólis. O encontro teve como tema "Educador, Orientador e Cuidador: Papéis e desafios dos profissionais no cotidiano" e foi direcionado aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, Rede Socioassistencial e Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.

A oficina contou com a participação de Vagner Souza, educador popular e analista institucional. Atuante no Sistema de Garantia de Direitos de Crianças e Adolescentes desde 2003, já foi educador em SAICA, arte-educador na Fundação Casa, coordenador de Serviço de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes (SAICA) e, desde 2011, atua como supervisor institucional e formador.

O profissional iniciou o encontro abordando o papel do Estado, da família e da sociedade civil na garantia do cuidado e da proteção integral, conforme preconiza o artigo 4º do ECA, dialogando também sobre aspectos históricos e do cotidiano do serviço.

Um ponto destacado pelo convidado foi: quais dispositivos podemos criar para garantir espaços de diálogo? Embora não exista um lugar perfeito, é essencial assegurar um espaço onde crianças e adolescentes possam se expressar e compartilhar suas experiências.

Vagner compartilhou uma experiência prática: toda segunda-feira à tarde era realizada uma assembleia. Não se tratava de decisão por voto, mas pelo desgaste do argumento. Com o tempo, os adolescentes perceberam que os adultos acabavam ganhando os debates. Então, começaram a organizar sua própria assembleia aos domingos, chegando na segunda-feira mais confiantes e com argumentos fortalecidos.

Por fim, um desafio apresentado por Vagner é que, embora existam propostas para crianças e a Política da Primeira Infância, e isso é importante, isso não ocorre com os adolescentes de forma sistemática, muitas vezes os adolescentes são vistos apenas como “o problema”. É fundamental mudar essa perspectiva.

Confira o vídeo com a oficina completa:

OFICINA – Cartografia dos afetos: O pertencimento de crianças e adolescentes ao território

OFICINA – Cartografia dos afetos: O pertencimento de crianças e adolescentes ao território

No dia 27 de agosto de 2025, o Instituto Fazendo História realizou a quinta oficina presencial do Projeto Formação em Redes, com o apoio do FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Instituto Pólis. O encontro teve como tema “Cartografia dos afetos: o pertencimento de crianças e adolescentes ao território” e foi direcionado aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, Rede Socioassistencial e Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.

A oficina contou com a participação de Sidnei das Neves, Psicólogo, Terapeuta Comunitário e Gerente do SPVV Claret II Brasilândia/Freguesia do Ó. Atua na área social dentro do Sistema de Garantia de Direitos de Crianças e Adolescentes, propondo discussões sobre as múltiplas violências que esse público e seus familiares/responsáveis vivenciam, testemunham ou presenciam em territórios de extrema vulnerabilidade. Atua também no território de Vila Brasilândia, como articulador e produtor cultural, sendo um dos fundadores do Sarau da Brasa, coletivo que existe há 17 anos no bairro, contribuindo para que as expressões culturais e artísticas dos moradores do território tenham espaço, visibilidade e oportunidade de desenvolvimento.

O profissional iniciou o encontro com a provocação: “Qual é o meu lugar?” Em seguida, propôs uma atividade em que os participantes precisavam escolher o ponto mais desconfortável do ambiente para sentar. Prosseguindo, perguntou aos presentes: “O que é afeto?” As respostas incluíram: amor, cuidado, vínculo, raiva, violência, elementos que nos afetam e nos atravessam.

Em continuidade, Sidnei pontuou a correlação entre o lugar onde crescemos e o afeto: ao pensarmos naquilo que amamos, os lugares costumam estar presentes na memória. Mencionou também o símbolo Sankofa, que significa olhar para trás para seguir adiante, enfatizando que muitas das crianças e adolescentes atendidos desconhecem sua origem.

A partir dessas reflexões, Sidnei ressaltou que o território faz parte da construção de identidade e da nossa constituição enquanto sujeitos. O lugar ao qual pertencemos pode gerar sentimentos de insegurança, inferioridade, medo, vulnerabilidade e vergonha, consequência do racismo e da violência estrutural que permeiam esses espaços.

Por fim, o profissional reforçou a importância da construção de estratégias que promovam a vinculação de crianças e adolescentes ao território em que estão inseridos, a partir das potencialidades e das produções artísticas e culturais locais. Alertou para o risco de reduzir o território às narrativas impostas a ele e salientou que, para a construção de mapas de afetos, é necessário acolher as angústias e as lembranças dolorosas das crianças, adolescentes e famílias atendidas.

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OFICINA – Motivo do acolhimento: Discutindo o conceito de negligência

OFICINA – Motivo do acolhimento: Discutindo o conceito de negligência

No dia 16 de julho de 2025, o Instituto Fazendo História realizou a quarta oficina presencial do Projeto Formação em Redes, com o apoio do FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Instituto Pólis, com o tema "Motivo do acolhimento: Discutindo o conceito de negligência". O encontro foi direcionado aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento e Rede Socioassistencial e do Sistema de Garantia de Direitos da Cidade de São Paulo.

A oficina contou com a participação de Thais Berberian, que possui Graduação e Mestrado em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, experiência profissional na política de saúde e na área sociojurídica e trabalha atualmente como assistente social pelo Tribunal de Justiça de São Paulo.

A convidada trouxe provocações importantes sobre o conceito de negligência, especialmente no contexto dos casos de acolhimento de crianças e adolescentes. Uma das reflexões centrais foi a forma como o termo tem sido utilizado, muitas vezes como sinônimo de pobreza, o que é preocupante. A negligência precisa ser compreendida como um fenômeno complexo, que não se limita às práticas internas das famílias. É necessário olhar para as famílias com os atravessamentos dos fatores sociais, econômicos, ausência de acessos , políticos e culturais.

Thais apresentou uma reflexão que convida a perguntar: a quem serve o uso recorrente do termo “negligente”? É preciso atenção ao modo como ele pode reforçar estigmas e responsabilizar exclusivamente as famílias, desconsiderando os contextos de desigualdade e desproteção social em que estão inseridas.

Nesse cenário, a escrita dos relatórios assume um papel central,  pois tem o poder de abrir caminhos ou fechar portas. Por isso, é fundamental que essa escrita seja ética, crítica e comprometida com a complexidade da realidade vivida pelas crianças, adolescentes e suas famílias.

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OFICINA – O direito do Brincar para crianças e adolescentes

OFICINA – O direito do Brincar para crianças e adolescentes

No dia 21 de maio de 2025, o Instituto Fazendo História realizou a segunda oficina presencial do Projeto Formação em Rede, com o apoio do FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Instituto Pólis. Com o tema "O Direito do Brincar para Crianças e Adolescentes", o encontro foi direcionado aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento, bem como a outros profissionais da Rede Socioassistencial e do Sistema de Garantia de Direitos da Cidade de São Paulo. 

A oficina contou com a participação de Mineia Oliveira – do Brincando na Kebrada – mulher preta, nordestina, mãe solo , periférica , ativista comunitária, ludo educadora, produtora cultural, formação acadêmica em Pedagogia pelo Instituto Singularidades, idealizadora do coletivo Brincando na Kebrada e pesquisadora de diversos brincares, com foco nas brincadeiras africanas e afro-brasileiras.

A convidada compartilhou as propostas que o Coletivo  Brincando na Kebrada utiliza  para garantir o direito do brincar com crianças e adolescentes no território e que podem ser utilizadas  como inspiração para os Serviços, além de promover o resgate do brincar e como os adultos precisam se reconectar com o brincar para que não seja visto como privilégio. Mineia apresentou estratégias para que os participantes da oficina pudessem produzir brinquedos de material reciclável, os brinquedos produzidos durante a oficina foram distribuídos entre os serviços.

Os participantes  puderam interagir com diversos brinquedos, tiveram brincadeiras de rodas,  partilharam memórias do brincar e outros tiveram a chance de conhecer algumas brincadeiras que até então desconheciam.  O espaço foi tomado por gargalhadas dos participantes e com  profundas reflexões sobre como o brincar é um direito e universal, e que como sociedade  devemos pensar em colocar o brincar na agenda como política pública. 

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OFICINA - Reflexões sobre violências institucionais: silêncios e omissões

OFICINA - Reflexões sobre violências institucionais: silêncios e omissões

No dia 25 de março de 2025, o Instituto fazendo História, com o apoio do FUMCAD, realizou uma oficina no Instituto Polis que recebeu profissionais para uma manhã de debates sobre o tema: "Violências Institucionais: Silêncios e Omissões". A oficina foi conduzida por Samara Xavier, educadora social, professora de pós-graduação em Gestão e Serviços do SUAS na Fapcom, formadora da PAULUS Social e da Social Soluções.

Por que este tema é tão importante?

As violências institucionais afetam diretamente a vida de milhares de pessoas, especialmente aquelas em situação de vulnerabilidade social. Ao ignorar ou naturalizar essas violências, perpetuamos sistemas de desigualdade e exclusão.

Durante o encontro, Samara trouxe à tona questões fundamentais sobre como as violências institucionais se manifestam no cotidiano, muitas vezes de forma invisível, perpetuadas por silêncios, omissões e práticas normalizadas nas instituições. “Quando falamos de violência institucional, estamos falando de violências cometidas a partir do Estado brasileiro e transbordadas para as instituições que representamos”, explicou a facilitadora. “Mas essas violências não são abstrações – elas são operacionalizadas por pessoas, incluindo nós, trabalhadores.”

O evento proporcionou aos participantes uma oportunidade única de alinhar conceitos, refletir sobre as relações de poder e discutir estratégias para enfrentar essas violências. Um dos pontos centrais da oficina foi a importância de reconhecer a humanidade nas interações com o público atendido, especialmente em serviços de cuidado e proteção. “Não podemos reproduzir estigmas ou tratar como violentas as pessoas que já são vítimas de um sistema desigual”, destacou Samara.

A facilitadora também chamou atenção para a necessidade de olhar criticamente para as próprias práticas institucionais. “Muitas vezes, somos ensinados a reproduzir comportamentos que perpetuam violências, mesmo sem perceber. É preciso desconstruir isso.” Entre os exemplos discutidos, estavam situações como a falta de apoio adequado, a omissão de informações claras e a revitimização de pessoas que buscam ajuda.

Outro aspecto relevante foi a discussão sobre como as violências institucionais se entrelaçam com outras formas de opressão, como racismo institucional, misoginia, capacitismo e xenofobia. “Para enfrentarmos as violências institucionais, precisamos nomeá-las e compreender suas especificidades”, afirmou Samara. “Silenciar essas questões é reforçar o ciclo de exclusão.”

A oficina contou com momentos de diálogo, análise de casos reais e reflexões coletivas, criando um espaço seguro para questionar práticas e propor mudanças. Os participantes saíram do evento com novas perspectivas e ferramentas para aplicar em seus contextos profissionais e pessoais.

Confira o vídeo com a oficina completa: clique aqui

OFICINA – ESTRATÉGIAS EM SAÚDE MENTAL: MANEJO DA AGRESSIVIDADE E VIOLÊNCIA

OFICINA – ESTRATÉGIAS EM SAÚDE MENTAL: MANEJO DA AGRESSIVIDADE E VIOLÊNCIA

No dia 25 de setembro de 2024, o Instituto Fazendo História realizou a décima primeira oficina presencial do Projeto Formação Profissional para o Trabalho com Jovens, com o apoio do FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Instituto Pólis. Com o tema "Estratégias em saúde mental: manejo da agressividade e violência", o encontro foi direcionado aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento e também a outros atores da Rede Socioassistencial e do Sistema de Garantia de Direitos da Cidade de São Paulo. 

A oficina contou com a participação de Kleber Duarte Barreto, psicólogo e supervisor clínico, que atua como pesquisador e supervisor na área de Acompanhamento Terapêutico (AT) na UNIP, além de coordenar a equipe Prosopon de AT. Desde 2004, ele supervisiona a equipe de AT do CEVAT, do Tribunal de Justiça de São Paulo e é, também, autor do livro “Ética e Técnica no Acompanhamento Terapêutico: andanças com Dom Quixote e Sancho Pança”.

Kleber abre o encontro abordando o quanto é desafiador esse tema do manejo de situações de agressividade e violência junto a adolescentes, que faz parte da rotina daqueles que trabalham nos serviços de acolhimento. Em um primeiro momento, permeado por relatos de experiências de sua prática profissional e pela abertura às questões dos participantes, ele apresentou conceitos básicos para aprofundar o olhar e a reflexão, a partir das ideias dos psicanalistas Donald Winnicott e Gilberto Safra. 

O convidado trouxe a ideia de hospitalidade como uma das condições básicas do ser humano, ligada à experiência de pertencimento, ou seja, temos a necessidade de nos inscrever na subjetividade de alguém, o que vai ganhando complexidade: desde pertencer a um grupo familiar, a uma comunidade, até a uma sociedade e à história da humanidade. Nesse sentido, há casos, quando já se perdeu a esperança de pertencer, em que se usa, como último recurso, a violência. Os comportamentos mais desafiadores de adolescentes, difíceis de suportar porque machucam e despertam ódio, podem se apresentar como formas desesperadas de buscar reconhecimento de que se pertence e está na subjetividade de outra pessoa.

Kleber também indica a agressividade enquanto um aspecto constitutivo do ser humano e que surge a partir da experiência de corporeidade do bebê, no processo de integração da dimensão somática, com a qual se nasce, a uma dimensão psíquica. Aprofundando na teoria de Winnicott, ele discute sobre a experiência de onipotência do bebê e como, à medida que o ambiente vai falhando, o que invariavelmente acontece e é necessário para que ele desenvolva seus recursos psíquicos e mentais, surge a agressividade. É por meio da agressividade que se desenvolve o princípio de realidade: quando tenta-se destruir o outro e o outro sobrevive, o bebê percebe que seu desejo de destrutividade não é tão poderoso assim. O convidado aborda a importância dos adultos sobreviverem a esse ataque e questiona como isso pode se desenrolar no contexto do acolhimento.

Kleber convoca o grupo a pensar como a violência vai ganhando complexidade conforme a criança cresce e tendo efeitos mais drásticos nas relações com o ambiente, despertando naqueles à sua volta sentimentos de raiva e ódio, os quais precisam ter um lugar de reconhecimento pelos profissionais. O ódio das crianças e adolescentes, e também dos adultos, pode se voltar para dentro, atacando o humor, a vitalidade e os vínculos internos, e se constituindo como ressentimento; ou para fora, se direcionando às pessoas de quem mais se gosta e com quem têm experiências de amor: de modo geral, quem mais nos desorganiza, é quem mais amamos. Pode-se viver esse ódio atuando nas relações, ferindo e machucando o outro, ou expressá-lo de outras maneiras, mais simbólicas.

Ele apresenta o serviço de acolhimento enquanto um lugar que deve ofertar experiências de cuidado e convivência às crianças e adolescentes, em um âmbito institucional, reproduzindo situações e relações básicas próprias do funcionamento de uma casa, para que eles se constituam e sigam suas vidas. Estas condições envolvem vivências de conflitos, presença de figuras masculinas e femininas, possibilidades de fantasias de separação e experiências de amor e ódio com uma mesma pessoa, integrando-a na relação. Traz também a relevância de pessoas de referência que sobrevivam, física e psiquicamente, aos ataques de ódio, para que, assim, os adolescentes possam perceber suas histórias de forma mais objetiva, reconhecer que as relações são compostas por coisas boas e ruins, e escolher dentro de possibilidades (não só, repetir). 

O convidado também atenta os profissionais para como a própria experiência de abrigamento é vivida pelos adolescentes como uma violência, que deixa marcas, da mesma forma que é importante reconhecer outras violências que se estabelecem, de modo silencioso, no cotidiano dos serviços e não são compreendidas como tal, tais quais situações de capacitismo, de superproteção e de ausência de limites. Ele aponta como a vivência de rupturas, enfrentamentos e conflitos, que pode envolver gestos de agressividade, é necessária para o amadurecimento do adolescente, e precisa de um ambiente acolhedor e seguro para que seja experienciada. 

Ambiente este no qual, a partir da relação com alguém mais significativo e que tenha sensibilidade para compreender o panorama no qual se deu conflito, o adolescente tenha a possibilidade de acolher em sua subjetividade essa experiência de dor e possa se situar, de maneira mais saudável e simbólica, frente à situação imediata, assim como à sua própria história. Nessa perspectiva, Kleber problematiza o lugar do castigo e da punição como formas de lidar com comportamentos desafiadores, indicando como atuam, muito mais, como tentativas de inibir, do que de transformar. E, como pensar em estratégias de interlocução, de restabelecimento da confiança e de construção de compromissos, nas quais os adolescentes tenham opções de escolha e sejam reconhecidos para além do lugar de desafio, pode ser um caminho muito mais efetivo.

Para ilustrar a ideia da experiência de habitar o coração do outro como transformadora, Kleber apresenta um trecho do documentário “Human”. Na segunda parte do encontro, os participantes se dividiram em grupos para discutir casos do cotidiano nos serviços de acolhimento, envolvendo situações de agressividade e violência com adolescentes, e depois expuseram no grupo maior, com a mediação do convidado.

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OFICINA - RELAÇÕES RACIAIS E O ACOLHIMENTO DE ADOLESCENTES

OFICINA - RELAÇÕES RACIAIS E O ACOLHIMENTO DE ADOLESCENTES

No dia 31 de julho de 2024, o Instituto Fazendo História realizou a décima oficina presencial do Projeto Formação Profissional para o Trabalho com Jovens, com o apoio do FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do Adolescente), no Instituto Pólis. Com o tema "Relações raciais e o acolhimento de adolescentes", o encontro foi direcionado aos profissionais que atuam nos Serviços de Acolhimento e também a outros atores da Rede Socioassistencial e do Sistema de Garantia de Direitos da cidade de São Paulo.

Convidamos Paulo Bueno, psicanalista, psicólogo, mestre e doutor em Psicologia Social. Paulo também colaborou com o Instituto AMMA Psique & Negritude de 2020 a 2021 e é autor de Coisas que o Pedro me ensina: crônicas de uma paternidade.

Paulo iniciou o encontro com os questionamentos: Como pensar as relações raciais na adolescência no contexto do acolhimento institucional? E como podemos desenvolver uma prática em Serviços de Acolhimento que possa ser identificada como antirracista?

Para refletir sobre uma prática antirracista, Paulo convidou todos a pensar sobre o que é o racismo, apresentando os elementos que compõem essa violência.

O racismo pressupõe a presença de três elementos. O primeiro é a construção da diferença. Para se falar de racismo, é necessário considerar a diferença como uma construção histórica. Não se trata apenas de constatação, mas de uma diferença específica em caracteres raciais que ganha propriedades ao longo do tempo. Nesse sentido, a diferença presente na noção de raça é construída, não como uma invenção, mas como uma categorização — por exemplo, entre raças branca, negra, amarela e indígena.

A diferença, por si só, pode produzir discriminação. Quando pensamos em outras formas de diferença que não são necessariamente raciais, encontramos formas discriminatórias — uma separação, critérios de segregação. Porém, nesse primeiro elemento, ainda não se inclui a ideia de negatividade presente no racismo.

Pode haver discriminação positiva; inclusive, pode-se encontrar valor nela, uma vez que o conceito de igualdade tende a nivelar diferenças, o que pode ser problemático. Por isso, no campo das políticas públicas, opta-se por políticas de equidade em vez de políticas de igualdade. Reconhecemos as diferenças e, assim, promovemos uma discriminação positiva que possibilita políticas de equiparação, como a política de cotas raciais.

O segundo elemento que compõe a noção de racismo é a hierarquia. Além de constatar a diferença, há também a sua hierarquização, algo que foi fomentado pelo colonialismo.

O colonialismo, ao inventar as raças, imediatamente hierarquizou entre aqueles que são considerados racionais e aqueles que não seriam dotados dessa capacidade. Os mais próximos de uma civilidade conforme os padrões europeus — ainda que existam outras civilizações com diferentes formatos — são escolhidos como modelo civilizatório, com outras sociedades sendo vistas como primitivas.

A diferença, combinada com a hierarquia, gera não apenas discriminação, mas também preconceito, pois a hierarquização implica uma inferioridade inata, socialmente construída em relação a determinado grupo.

Por fim, o terceiro elemento fundamental para a construção do racismo é o poder. Há uma distribuição desigual nas relações raciais; além da hierarquização, o poder se concentra em um determinado grupo — o grupo branco — em comparação com os demais grupos racializados. Paulo trouxe para a discussão Grada Kilomba, que aponta que o racismo, necessariamente, está relacionado à supremacia branca. Isso se torna claro quando observamos que o poder, os bens materiais e os bens simbólicos estão concentrados nas mãos da branquitude.

Ao incluir o elemento do poder na definição de racismo, entende-se por que não é possível falar em racismo contra si próprio. Não existe racismo contra si próprio, pois a dinâmica de poder fará com que práticas e discursos racistas sejam voltados contra a própria população negra. Paulo exemplificou que, se ele se posicionar contra as cotas raciais, no futuro, as crianças de sua família serão prejudicadas. Nesse sentido, a noção de racismo contra si próprio não se sustenta, pois é necessário considerar o poder nas relações raciais.

Paulo explicou que o conceito de "racismo reverso" é impreciso. Mesmo que ocorram comportamentos hostis de indivíduos negros contra indivíduos brancos com base em raça, essas ações não se enquadram na definição de racismo, pois a dinâmica de poder subjacente permanece inalterada, sendo este um elemento crucial na definição de racismo.

A noção de racismo apresentada por Paulo Bueno se sustenta na diferença, hierarquia e poder, diferenciando as categorias de racismo, preconceito e discriminação, que não são sinônimos. No racismo, há discriminação e preconceito; no preconceito, há discriminação, mas não necessariamente racismo.

Paulo avançou na definição de racismo, diferenciando o racismo estrutural do racismo institucional, que, por sua vez, difere do racismo cotidiano. Na oficina, ele abordou em mais detalhes essas distinções e como o racismo se manifesta nas instituições, assim como os impactos que os jovens negros acolhidos sofrem em seu dia a dia.

Paulo Bueno é psicanalista, psicólogo (PUC-SP), mestre e doutor em Psicologia Social (PUC-SP). Ele também colaborou com o Instituto AMMA Psique & Negritude (2020-2021) e é autor de Coisas que o Pedro me ensina: crônicas de uma paternidade. Além disso, atua como supervisor clínico e institucional, é docente no Instituto Gerar de Psicanálise, pesquisador do Núcleo Psicanálise e Sociedade (PUC-SP) e professor convidado do Programa Fellowship (2021-2022) da Columbia University.

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OFICINA – COMO FALAR SOBRE HISTÓRIAS DIFÍCEIS

OFICINA – COMO FALAR SOBRE HISTÓRIAS DIFÍCEIS

No dia 27 de julho de 2022, o Instituto Fazendo História realizou a oficina online “Como falar sobre histórias difíceis”, que contou com a participação da especialista Valeria Tinoco, psicóloga, mestre e doutora pelo Programa de Psicologia Clínica da PUC-SP, autora de capítulos em livros e artigos científicos e representante da IAN Brasil (International Attachment Network).

Valéria inicia abordando como o trabalho na área do acolhimento fundamenta-se a partir de temas difíceis, sendo que ele começa quando algo dá errado, em alguma medida. Coloca como uma grande pergunta: como lidar com temas que geram em nós, e imaginamos que também vão gerar nas crianças, emoções muito complexas, normalmente associadas ao sofrimento? Ela traz que, quando poupamos as crianças dessas conversas, fazemos com as melhores das intenções, para que não enfrentem mais dificuldades, e que a proposta da oficina é conversar sobre alguns temas para vermos a que conclusão chegamos.

A especialista apresenta, então, uma história que faz parte do livro “Meu filho Pato”, organizado pelo Ilan Brenman e apoiado pelo Instituto Quatro Estações. O conto se chama “Pensamentos da bexiga murcha”, de Indigo, e trata de temas difíceis, como envelhecimento, morte e medo, de uma forma possível e leve, sem negar essas questões desafiadoras e sem fazer uso de formas distorcidas ou metáforas para poder enfrentá-las. A partir disso, ela salienta que, para abordar o assunto da oficina, gostaria de fazê-lo por meio de três eixos: 1) os temas difíceis em si; 2) a partir da perspectiva da criança ou do adolescente; 3) falar sobre o adulto que conversa com a criança.

Valéria, iniciando pelo terceiro eixo, colocando que esse tipo de conversa com as crianças requer disponibilidade da nossa parte: precisamos estar disponíveis emocionalmente, ter tempo e espaço em nosso entorno. Traz que questões, como Eu aguento?, Tenho tempo?, Estou preparada para falar sobre isso?, precisam estar em nosso radar, indicando o que devemos nos atentar para viabilizarmos estas conversas, seja cuidando de nossas próprias dores, buscando ajuda ou nos informando sobre aquilo que não temos ainda muito repertório para lidar. Reforça que quando evitamos certos assuntos visamos proteger a criança, mas será que não queremos também nos proteger? Esses temas podem gerar também nos adultos sentimentos como tristeza, medo e vergonha, associados à forma como foram criados, passando por situações onde não se podia conversar ou suas necessidades não eram reconhecidas.

Traz, então, que não é o fato de conversarmos sobre temas difíceis o responsável pelas emoções dolorosas - estas têm origem na notícia em si, que está além do que o adulto, seu portador, pode controlar. Quando não falamos de determinado assunto, não permitindo que a criança ou o adolescente conheça dados de sua história, estamos negando-lhe a oportunidade de elaborar aquela experiência. O acúmulo de vivências não elaboradas vai impactar enormemente em sua saúde mental e em seu desenvolvimento, principalmente no que se refere à formação de vínculos. Coloca como questão: como essa criança ou esse adolescente vai se vincular e confiar em alguém se vive cheio de mistérios e lacunas, e se há partes de sua história que não consegue entender? Ela enfatiza que cabe aos Serviços de Acolhimento trabalhar para preencher essas lacunas, dizendo às crianças e aos adolescentes que, apesar de difíceis, eles podem dar conta de caminhar com a sua própria história. E que, quando falamos, os preparamos não apenas para lidar com a situação daquele momento, mas também para enfrentar outros acontecimentos que necessariamente vão passar e que lhes dizem respeito.

Em seguida, a especialista apresenta elementos para pensarmos acerca dos temas difíceis em si e como estes nos despertam sentimentos que nos deixam vulneráveis, e tendemos a evitá-los. Além disso, o desconhecimento do tema e o tabu que permeia o falar de certos assuntos e que percorre gerações podem gerar mais desafios. Traz exemplos de sua experiência prática indicando uma tendência, de muitas vezes, as pessoas acreditarem que, para começar uma nova história, tudo o que diz respeito ao passado deve ficar para trás, incluindo as relações e vínculos temporários criados nas experiências de acolhimento. E reforça o quanto é importante, mesmo com o sofrimento gerado pelo rompimento inerente ao acolhimento, o desenvolvimento de vínculos de qualidade e o aprendizado de que é possível se vincular e viver uma experiência de afeto. O sofrimento em uma relação de vinculação é um sinal de saúde emocional e o problema aparece quando não sentimos nada a partir de um rompimento. Recorre à frase do especialista em luto Colin Parks, “a dor da perda é o custo do compromisso, perdemos só o que temos”, para dialogar acerca da ideia de que a única forma de não sofrer diante do afastamento é o não investimento na relação e em outros futuros possíveis para as crianças e adolescentes, o que sai do escopo do trabalho a ser desenvolvido em um Serviço de Acolhimento.

Em relação ao eixo da perspectiva da criança ou do adolescente, Valéria se refere a como não saber o que aconteceu é muito mais angustiante e torna a perda muito mais complexa de ser enfrentada, uma vez que, quando há segredos ou mistérios, ele não consegue construir uma nova forma de estar nesse mundo. Levanta como questão: o que podemos, como adultos, oferecer a essa criança ou a esse adolescente para facilitar o enfrentamento de uma situação desafiadora, a reconstrução de seu mundo e a confiança de que a vida vale a pena de ser vivida? Salienta que, certamente, a resposta não é o silêncio, o qual caminha junto com a ideia de que aquilo que vivencia não é importante.

No final de sua apresentação, a especialista expõe os fatores que considera que dificultam ainda mais a vivência de experiências difíceis pela criança ou pelo adolescente: a falta de informação sobre o que aconteceu; não ter alguém em quem confiar para poder perguntar e pedir ajuda; não ter suas necessidades reconhecidas e não poder expressar o que se sente; um entorno instável e inseguro; e a exposição contínua a outros estresses. Valéria ainda apresenta mais dois recursos que podem contribuir para a instrumentalização para o trabalho com os temas difíceis. Primeiro, traz a técnica “O mundo de...”, espaço para que se coloque todos os elementos da história de uma criança ou adolescente, concretizando qual ela é e fortalecendo a ideia de que ele é capaz de enfrentar aquilo que está em seu mundo, encontrando, assim, uma sensação de potência. Em seguida, oferece uma animação, baseada no livro “O dia em que o passarinho não cantou”.

Por fim, foi aberto um espaço para que os participantes da oficina trouxessem perguntas e considerações sobre o que foi abordado, associando às experiências na área do acolhimento. Algumas questões foram levantadas, relacionadas às práticas de não vinculação e de não poder chorar como ainda frequentes e aos comportamentos de resistência apresentados por uma criança durante o percurso de adoção. Valéria aproveita para caracterizar o luto como um processo adaptativo a uma perda significativa e, como tal, normal e esperado. E fortalece o papel dos profissionais da área de acolhimento no lugar de compreender e oferecer conforto, a partir da experiência do outro.

Assista o vídeo com a oficina completa: https://youtu.be/JRSd5s1TT6E